MELINDRE por Manoel Moacir Costa Macêdo

Manoel Moacir, 13 de Maio, 2022 - Atualizado em 13 de Maio, 2022

 

 

 

Escrever sobre o comportamento humano é uma tarefa difícil. Exige conhecimento das ciênciashumanas e biológicas, compreender o meio social, as relações familiares e as particularidades dainfância. Inexorável penetrar no interior da alma humana e no “autodescobrimento”. Um desafio deimpossibilidades, erros e equívocos. Esse modesto texto é exploratório e provocativo, carente demetodologia, teoria e explicação de causa e efeito.

​No dicionário da língua portuguesa, melindreque dizer substantivo masculino, “sentimento de vergonha, pudor, recato, escrúpulo, disposição para se ressentir, se ofender geralmente por coisa insignificante e suscetibilidade”. Vinculado as criaturas que exigem “extrema delicadeza no trato pessoal”. No paradigma da pós-materialidade que está porvir, o “melindre faz parte da evolução das criaturas encarnadas”. No entanto, ele não pode ser uma mentira disfarçada na “maledicência frequente”. O bandeirante espírita Caibar Schutel, escreveu que o “melindre é filho do orgulho” e entrave à evolução da criatura humana.

Em sociedades desiguais como a brasileira,onde predomina o analfabetismo, pobreza, violência, conflito e abismal distância entre os de cima e os de baixo, a lógica é “levar vantagem em tudo” e “salve-se quem puder”. O “homem cordial, o jeitinhobrasileiro e com quem está falando” são expressõesquem escamoteiam as nossas mazelas sociais, políticas e morais, articuladas com maestria pelas elites. O sentido de “melindre” nas relações sociais, pode ser a fuga da nua e crua realidade. Colocar “debaixo do tapete” os conflitos e assimetria social.

O “melindre” não pode ser confundido com omissão e nem com estratégia. Ele assunta o “silêncio obsequioso”. O neurologista Miguel Nicolelis, afirma que o cérebro é o “verdadeiro criador de tudo” pela sua “capacidade de se autoadpatar, propriedade conhecida como plasticidade”. Apreender o que for conveniente, ouvir o que lhe satisfaz e descartar o contrário, tal qual o “melindre”.

O modo de viver em sociedades com passado colonial e holocausto da escravidão negra, deixou a herança da subserviência, humilhação e desigualdade entre os que muito tem e os que nadapossuem. Essas sociedades acolhem o “melindre” como “alergia moral”. O oposto seria a altivez, aopinião livre e o diálogo franco, o que não acontecenos trópicos abaixo da linha do Equador.

O “melindre” é o disfarce da justa indignação, dainjustiça e da ingratidão alheia. Rejeição ao protesto, ao repúdio e à atitude afirmativa. É imperativo separar o “melindre” da piedade, da solidariedade eda compaixão, escassos na “modernidade líquida” de pairas e excluídos, mesmo em sociedadesmajoritariamente cristãs e marcadas pelo “sinal da santa cruz”. O “melindre” não pode ser um louvor ao silêncio hipócrita e à cumplicidade em nome do divino e da sabedoria.

O “melindre” é uma forma de controle social. Eleprotege a covardia e a “sensibilidade de porcelana”. Ela não pode substituir a discussão sadia e vigorosa, sob pena de expressar fraqueza e “síndrome do egoísmo”. Ao final, o “melindre” não é o álibi da vaidade e nem da proteção dos fracos. “Melindrar-se, é perder as melhores situações e oportunidades”de viver ativo, presente e atuante.

 

 Manoel Moacir Costa Macêdo é engenheiro agrônomo e advogado.

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