Entrevista com Jilberto Oliveira

Domingos Pascoal, 04 de Agosto, 2021

O nosso entrevistado de hoje é o acadêmico Jilberto Oliveira da ALCS – Academia Literoculural de Sergipe, professor, escritor, contista e cronista, autor do Livro “Trilhas do Cipoal”, mora em Malhador - Sergipe.


 

1.Domingos Pascoal: Apresente-nos, o acadêmico, professor e escritor Jilberto Rodrigues de Oliveira.


Jilberto Oliveira: Sou filho dos agricultores José Bispo de Oliveira e Maria Edina de Oliveira, nasci em Malhador, Sergipe, em 1957. Sou casado com Maria José Oliveira com a qual temos três filhos: Marília, Monique e Jilberto Júnior. Fui migrante em São Paulo por 10 anos, onde trabalhei como office-boy e bancário. Ao retornar a Sergipe, cursei Letras Português na Universidade Federal de Sergipe (UFS) e me pós graduei em Linguística do Texto pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Lecionei na E. E. São José, no antigo Projeto Somem e me aposentei no C. E. José Joaquim Cardoso como Coordenador Pedagógico depois de atuar vários anos em sala de aula como professor de Português. Como sempre gostei de ler e de escrever, publiquei no último mês de abril meu primeiro romance: Trilhas do Cipoal. Além dele, sou autor de vários contos e crônicas pulicadas em sites, blogs e várias antologias que estão em andamento.


2. Domingos Pascoal: Fale um pouco de sua cidade e os seus instrumentos educacionais, cultural de História e de Memória.


Jilberto Oliveira: Malhador é um município sergipano, situado na Região Central do Agreste de Itabaiana e tem aproximadamente 13 mil habitantes. Sua economia está voltada para a pecuária de corte e para a agricultura de subsistência. Há muitos anos, o município ostenta o título de maior produtor de inhame do estado. Porém, devido aos problemas climáticos, aos altos custos de produção e à falta de incentivos bancários, esse título está ameaçado. Todavia, não apenas o inhame é destaque em nossa agricultura, também somos fortes produtores de mandioca, banana e batata-doce. Sendo um município agrícola por vocação, não é de se estranhar que quase todas as manifestações culturais de Malhador estejam relacionadas a ela. A exemplo da festa do padroeiro São José, no dia 19 de março, data icônica para os agricultores, do Acorda Vem Ver que abre o mês junino e do Casamento dos Tabaréus que ocorre no final de cada mês de junho.  Historicamente, já pertencemos a Riachuelo, mas a formação de nosso município teve grande influência dos vaqueiros de Itabaiana que por aqui passavam em busca de melhores pastagens para o gado. O próprio nome “Malhador” tem a ver com local em que o gado rumina e passa o tempo pastando. Entre os filhos ilustres de nosso município, cito Ariosvaldo Figueiredo o qual era agrônomo, jornalista, escritor, entre outras profissões que exerceu. Foi Ariosvaldo quem escreveu o Hino e a História de Malhador. Atualmente, o município está bem representado no quesito acadêmico, pois há conterrâneos doutores, escritores, jornalistas, advogados, professores universitários e literatos.


3. Domingos Pascoal: O que levou você a seguir a missão de professor, escritor?


Jilberto Oliveira: Meu caro Domingos, acredito que cada um de nós nascemos com uma missão dada por Deus. Explico: em uma família de 11 irmãos, filhos de um casal de agricultores, eu sendo o sexto entre eles, fui o primeiro a ser alfabetizado tardiamente, pois, quando isso ocorreu, já contava com 12 anos de idade. Justifico: nasci na roça no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1957, em um local riscado do mapa, onde faltava tudo: água encanada, rede de esgoto (nem pensar), luz elétrica, serviço médico e escola, ou melhor, existia o prédio escolar, só não havia professor(a). Quando uma mestra apareceu naquelas cercanias, eu estava com 11 anos. Aí, surgiu uma contenda entre meu pai e minha mãe. Esta queria que eu fosse à escola, aquele era contra, pois eu já ajudava na roça. Nessa quebra de braço entre os dois, minha mãe foi vitoriosa com algumas restrições impostas por meu pai. Poderia estudar apenas no verão e, se reprovasse, não se matricularia no ano seguinte. Veja bem! Iniciei os estudos sem conhecer o “A”, mas, aos poucos, fui tomando gosto pela coisa e a professora tornou-se minha aliada, tendo em vista que eu não gostava de trabalhar na roça, porque era muito exaustivo. Por isso, esforcei-me ao máximo nas aulas. Resultado: no último semestre letivo, obtive aprovação com destaque para o segundo ano. Este fato não foi o suficiente para que meu pai deixasse de me ameaçar de tirar da escola no ano seguinte. Contra essa posição dele, reagi. Mobilizei a professora para ir falar com ele, passei a ensinar o alfabeto todas às noites para meus irmãos (minha vocação de professor começou aí) e contei com o apoio de minha mãe. Concomitantemente, lia livretos de cordel para o pessoal de casa e para meus vizinhos e, na falta de cordéis, escrevia histórias que eu mesmo inventava. Meu gosto pela escrita começou aí. Finalizando, renovei matrícula no segundo ano e fui até o quarto, sempre sendo aprovado. Terminado o primário, outro dilema: o curso ginasial em Malhador era particular. Eu não tinha como pagar as mensalidades e meu pai, se tivesse condições, não as pagaria, porque, segundo ele, escola de pobre era a roça. Mesmo assim, teimei e fiz o Exame de Admissão. Aprovado com mérito, fiquei na expectativa. Porém, Deus ajudou que meu irmão mais velho que morava em São Paulo veio nos visitar. Ao chegar, tomou conhecimento de minha problemática e decidiu levar-me com ele. Chegando a São Paulo, imaginem eu um tabaréu, que só conhecia a sede de meu município e mal Itabaiana. Como diz o ditado popular: comi o pão que o diabo amassou.


4. Domingos Pascoal: Como você se preparou para ser o líder, professor e escritor que é hoje?


Jilberto Oliveira: Mesmo no tempo em que eu era bancário, nunca pensei em exercer outra profissão que não fosse a de professor. Sou professor por opção, pois poderia ter seguido no banco, fazendo um curso superior em Administração ou até mesmo ser um advogado, já que, quando estava cursando o 4º período de Letras, prestei vestibular para Direito Diurno na UFS (1985) – apenas para testar meus conhecimentos – e fiquei classificado como primeiro excedente. Assim que fui chamado para fazer matrícula no referido curso, não tive coragem de deixar o de Licenciatura o qual já estava fazendo. E, ser professor, é um desafio diário, pois a todo instante surgem novidades as quais o docente deve estar preparado para enfrentá-las. Quanto ao meu preparo, minha prática foi sempre em busca de me atualizar por intermédio de cursos de capacitação, muitas leituras e pesquisas. Do meu lado escritor, sem dúvida, o que influenciou muito é o fato de sempre ter gostado de ler e, geralmente, quem gosta de ler, gosta de escrever e vice-versa, pois uma atividade está inerente a outra. Além de ler e escrever, gostaria também de saber dançar e jogar bola. Dançar nunca aprendi, pois tinha receio de passar ridículo, sou muito tímido; jogar bola nunca aprendi porque meu pai me proibia.


5. Domingos Pascoal: Durante o seu aprendizado existiam vozes dissonantes? Você poderia citar algum exemplo e como você reagiu e superou?


Jilberto Oliveira: Enquanto eu estudava o Primário, na escolinha rural do lugarejo em que nasci, era bem acolhido e nunca sofri alguma ameaça que colocasse em risco o meu futuro como estudante. Porém, quando migrei para outro estado e ingressei na primeira série ginasial, a situação mudou, pois passei a ser vítima de bullying, sistematicamente, tanto por parte dos colegas como de alguns professores. O fato de ser do Nordeste, de origem humilde, muito tímido e frequentar uma escola pública, predominantemente, frequentada por filhos da classe média paulista, colocava-me em desvantagem. No início, reagi, fechando-me dentro de mim como um molusco faz em sua concha e chorava. Chorava muito com saudades de minha terra e da família, pensei várias em desistir e voltar, mas perseguia um objetivo que não podia ser frustrado. Sendo assim, ignorei a realidade e continuei me esforçando, estudando sozinho dia e noite a fim de me destacar na turma. Tanto esforço surtiu efeito positivo no fim do ano, já que minhas notas eram as melhores da turma. Desse jeito, angariei admiração dos meus algozes: alguns colegas e uns mestres. No ano seguinte, aqueles que me molestavam psicologicamente disputavam com unhas e dentes para conseguir uma vaga em meu grupo de estudo.


6. Domingos Pascoal: Você poderia tecer sua trajetória profissional até aqui?


Jilberto Oliveira: Minha vida profissional começou aos 19 anos como office-boy de uma empresa hospitalar, porém, fiquei nessa atividade somente por 6 meses. Em seguida, ingressei no Bradesco como Escriturário e fui promovido, um ano depois, à função de Chefe de Secção/Caixa Executivo na qual continuei até quando pedi demissão, depois de 4 anos e 7 meses, após ter ingressado naquela instituição financeira e voltei a Sergipe. Aqui, entrei no Magistério Público em 1985, lecionei na E. E. São José em Malhador e, em 1999, fui transferido para o Projeto SOMEM. Com a extinção desse projeto, passei a lecionar Português e Redação para o Ensino Médio do C. E. José Joaquim Cardoso de Malhador até setembro de 2009, quando deixei a sala de aula para assumir o cargo de Coordenador Pedagógico, função na qual estive até julho de 2014, quando se deu minha aposentadoria por tempo de serviço.


7. Domingos Pascoal: Você poderia eleger e falar um pouco sobre mudanças que você teve que fazer para chegar aonde você está?


Jilberto Oliveira: A vida é muito dinâmica e eu fui parte desse processo. Cada etapa de minha vida foi acompanhada de profundas mudanças as quais tive de me adaptar a fim de sobreviver enquanto pessoa humana e como profissional. A primeira mudança ocorreu aos 15 anos quando deixei minha família, minha terra e migrei para São Paulo. A segunda tem a ver com a assimilação de uma cultura alheia como forma de sobrevivência em um ambiente hostil, no caso, ao chegar a São Paulo em plena adolescência. A terceira ocorreu quando retornei a Sergipe, uma década depois e já adulto, com modos e costumes de onde estava morando. Nesse caso, tive de desaprender tudo e reaprender a minha cultura de origem. Por último, as mudanças no trato do ser humano como pai, professor, colega, a constante busca do escrever melhor, coisas que só se aprende com o amadurecimento.

 

8. Domingos Pascoal: Você poderia nos dizer quais são seus projetos voltados para a Educação, Literatura e Produção Literária?


Jilberto Oliveira: Enquanto atuava em regência de classe, desenvolvi projetos para a Educação que tinham como foco o protagonismo do aluno. Sendo assim, promovi exposições literárias, projetos de leitura e de escrita, gincanas, adaptações de romances em peças teatrais, debates entre os alunos sobre romances lidos, exposições de fotografia com temáticas poéticas, concurso de textos nas modalidades conto, crônica e artigo de opinião, entre outros. Como sou professor aposentado, pretendo seguir as produções literárias e desenvolver rodas de leituras com a minha comunidade local.


9. Domingos Pascoal: Se você fosse dar uma palestra para os jovens hoje, quais seriam as suas mensagens principais?


Jilberto Oliveira: Se eu tivesse de palestrar para os jovens neste momento, as minhas mensagens principais seriam: 1) Se você tem um sonho, nunca desista dele por mais difícil que se apresente. 2) Antes de acreditar nos outros, acredite em si mesmo, nas suas próprias forças. 3) Esteja preparado, pois a corrida da vida é uma competição em que muitos quererão puxá-lo para trás. 4) Não acredite em vitória fácil, pois nada vem de graça na vida. 5) Leia todo tipo de texto, pois isso lhe ajudará muito. 6) Associe a leitura à escrita, pois uma é o espelho da outra.

 

10. Domingos Pascoal: Como você ver o mercado atual do livro?   – O brasileiro está lendo suficiente para adquirir conhecimento?  – O livro digital veio para somar ou para substituir?  – O livro impresso vai acabar?   – Você ver diferença entre ler e estudar?


Jilberto Oliveira: Considero que, no momento atual, a demanda de livros no mercado é superior a que já existiu outrora, tendo em vista que aumentou o acesso dos escritores às editoras que, por sua vez, vêm crescendo em todos os estados.  

Apesar dos melhores acessos à cadeia produtiva para os escritores, do aumento de publicações, da criação de academias literárias e da melhora econômica da população, acho que o brasileiro ainda lê pouco se comparado a outros países emergentes. Portanto, insuficiente para adquirir o conhecimento a contento.

O livro digital veio para somar, pois se trata de mais uma ferramenta à disposição de certos leitores em determinadas situações. Pelo menos, por enquanto.

O livro impresso não vai acabar. Creio que o fascínio que ele exerce sobre o leitor e a sensação agradável de manuseá-lo são requisitos que favorecem a sua sobrevivência através dos tempos, desafiando as novas ferramentas tecnológicas.

Sim, estudar e ler são atividades distintas. A primeira pressupõe uma obrigatoriedade, desprovida de prazer, enquanto, como na segunda, ocorre o contrário. Quem a faz age simplesmente por puro prazer, deleite pessoal, já que nada do que se faz por obrigação é prazeroso.

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