ACADEMIA LITERÁRIA EM AÇÃO

Domingos Pascoal, 04 de Outubro, 2021

Por Augusto Martins Melo
Secretário da Academia Groairense de Letras


Neste ano de 2021, a Academia Groairense de Letras completa 04 anos de fundação. Naquela época pedi para que os confrades expressassem suas impressões sobre o que acontecia, naqueles dias, na terra de padre Mororó. Dr. Antônio Augusto Martins Melo ateve-se a escrever sobre a festa referência da cidade, a nossa festa da padroeira, que ora publico aqui por ocasião da comemoração dos quatro anos do nosso sodalício.

Atendendo ao convite do meu amigo e Confrade da Academia Groairense de Letras - AGL, Domingos Pascoal de Melo, a quem não posso deixar de atender pela relevância da ação libertadora no impulso criador originário da AGL, vou tentar traçar, em poucas linhas, meu olhar sobre a Festa de Nossa Senhora do Rosário em Groaíras neste ano de 2017.

Escrever sobre Groaíras é um dever que poucos realizam, pois é forma eficaz de registrarmos nossas memórias e parte da história da cidade que amamos. Para mim, sem dúvida, é um desafio. Não se trata apenas transcrever paixões, mas libertar o escritor aprisionado em suas observações particulares que, na escuridão silenciosa, influem poderosamente sobre o ser...

Começo como o lavrador. Ele, antes do plantio, prepara a terra para a semeadura. Assim como ele em sua arte, para escrever preciso “lavrar” para que minha escrita brote sem “azedumes”. Dessa forma convido o amigo leitor a se despir de preconceitos antes de interpretar-me. São apenas perspectivas e cada um tem as suas.

Alerto para o fato de que escrevo com “caneta rubra”, pontiaguda, apaixonada, que criva no papel e fere o leitor desatento e apaixonado pelo contraditório do pensamento corajosamente exposto.
Não quero ser vítima do que escrevo. Quero ser protagonista de uma cidade ainda em construção. Então, vamos ao que interessa!


Perspectivas da Festa de Nossa Senhora do Rosário de Groaíras-CE.

Neste ano de 2017 a Festa de Nossa Senhora do Rosário seguiu seu roteiro tradicional. Começou no dia 27 de setembro e findou no sábado, dia 07 de outubro.
Muitas foram às ocorrências positivas vivenciadas nestes dez dias em que o povo católico groairense exercitou sua fé e devoção a Santa Padroeira cuja imagem repousa no alto do altar com o terço na mão “[...] pedindo para eu rezar [...]”, coforme registrou o poeta Luís Cassiano Feijão.

Foi a primeira Festa da Padroeira conduzida pelo novo pároco da cidade, Pe. Antônio José. O jovem padre, com formação em psicologia, adotou metodologia inovadora e eficaz quanto à socialização e valorização do povo groairense ao envolver as famílias na realização dos atos religiosos da festa. Em cada dia determinadas famílias da cidade eram homenageadas na igreja até que, no decorrer dos dez dias festivos, todas fossem contempladas. Estas participavam dos atos da igreja socializavam um pouco de suas vivências para com os demais fieis presentes no templo católico para o exercício de sua fé.

A atuação do pároco neófito é compreendida como o momento em que o líder católico rompe os entraves construídos nos períodos anteriores, aproxima-se da população, se apresenta e apresenta as diretrizes do seu ofício na condução dos trabalhos da Igreja. A ideia inicial é de que este se dará de forma coletiva, num exercício constante aproximação da Igreja aos fieis.

Quanto às ocorrências vivenciadas na Festa de Nossa Senhora do Rosário, duas marcarão a história de Groaíras. Foram elas a instalação da Academia Groairense de Letras – AGL e o lançamento do livro “Groaíras Nosso Pedacinho de Chão”, do escritor Raimundo Nonato Ximenes, o querido Dr. Ximenes, cidadão que surpreende pela eloquência e lucidez de sua inteligência no auge dos seus 94 anos de idade.

A Academia Groairense de Letras – AGL foi instalada em sessão solene realizada no dia 04 de outubro no prédio da Escola Monsenhor Linhares, tendo como patrono àquele que foi o maior educador groairense e um dos principais responsáveis pela “construção” do imaginário groairense: Monsenhor Raimundo Cleano Tavares Moreira.
O ato foi iniciado às 19h e encerrado por volta das 22h, sob a presidência inicial do Dr. Domingos Pascoal de Melo e a presença de parcela da sociedade Groairense. Coube ao Confrade Pascoal empossar a primeira Presidente da Academia Groairense de letras, professora Edna Maria Mendes Rodrigues, que, em seguida, deu posse aos 30 acadêmicos fundadores efetivos, 09 acadêmicos fundadores honorários, 05 fundadores beneméritos e 02 acadêmicos fundadores correspondentes. Ao confrade Domingos Pascoal de Melo, fonte de onde “brotou” a agremiação literária groairense, foi proclamado pelos demais membros, presidente de honra desta. A mim, importa registrar nesta escrita que é minha, coube a honra de tomar posse como o Secretário Geral da AGL. O desafio é grande, mas o objetivo é Groaíras.

A parte musical da festa ficou a cargo da Banda de Música da Associação Tobias Cassemiro – ASTO, Banda “Sons de Clara”, regida pelo Maestro, professor doutorando em Geografia, Márcio Luís Alves Paiva.

A cobertura jornalística do evento coube aos blogs do Tide e do Motinha, sendo a transmissão ao vivo do ato realizada pela Rádio Itamaracá FM sob a condução do seu presidente, Francisco Grijalba (Miúdo).

O dia 05 de outubro, tudo devidamente registrado no cronograma oficial da Festa de Nossa Senhora do Rosário, foi especial pelo lançamento do livro que, salvo engano, é a oitava obra literária do escritor Raimundo Nonato Ximenes e a segunda na qual trata especificamente das coisas de Groaíras. O evento ocorreu após a missa das 19h daquele dia, na lateral esquerda da igreja, defronte a casa paroquial e contou com a presença de muitos groairenses e visitantes que vieram prestigiar o grande mestre.

Dr. Ximenes, como é carinhosamente conhecido no meio social groairense, é a maior referência viva em termos de historiografia contemporânea de sua cidade, especialmente pela dedicação e cuidados no exercício de um dos seus ofícios, jornalista e correspondente da imprensa cearense. Neste labor, teceu com maestria o cenário e a apresentação de sua terra na “Terra do Sol”. Assim, “Groaíras Nosso Pedacinho de Chão”, obra na qual dei minha parcela de contribuição, é importante documento da história de Groaíras, bem traz em si diretrizes ao olhar aguçado dos historiadores da cidade. É obra de registro e desafio àqueles que se atreverem a desvendar os nortes da história groairense presentes nesta obra do imortal, cadeira 01 da Academia Groairense de Letras, confrade Raimundo Nonato Ximenes.
Outro aspecto positivo da Festa da Padroeira de Groaíras foi à intervenção mínima modeladora da atual Administração Pública municipal ao devolver, depois de longos anos, os bancos à praça matriz. Não foi só devolver os bancos à população, foi ampliar o número destes. O ato não se restringe ao embelezamento do logradouro público. O maior benefício compreendido como a promoção da socialização do povo groairense e dos seus visitantes. Os bancos da praça, adquiridos por doação de diversas famílias da cidade, permitiram o retorno do povo àquele que é centro de excelência em matéria de encontro com o outro.

Registra-se que a Festa de Nossa Senhora do Rosário, principal evento festivo do calendário cultural local, não se restringe à população católica. Este é o único momento do ano em que todos os groairenses e os inúmeros visitantes, groairenses ou não, independentemente do credo, se encontram. Desconheço outro evento de tamanha intensidade aqui nestas terras do Riacho. Claro, é uma questão de ponto de vista. Acredito ser este o pensamento predominante.

Em se tratando de minhas perspectivas, não posso me furtar às minhas verdades, das inquietações e mal-estares que me tiram o sono e me condenam num aprisionamento dolorido, semi-introspectivo, que não é total devido minha “boca grande”, falo demais e vou de encontro às regras bíblicas de inteligência, do tipo: “O tolo não gosta da inteligência, mas de propagar o que pensa” (Provérbios, 18:2). Que me perdoe premissa bíblica, mas pensar e calar são exercícios de dor. Prefiro a interpretação de “ausência de inteligência” verbalizada no que tange aos meus casos pessoais e de minha terra do que o silêncio ou o anonimato dos covardes. É nesta vertente que passo, neste instante, a registrar àquilo que considero como pontos de “incômodo” da Festa da Padroeira, Nossa Senhora do Rosário, de Groaíras.

O primeiro ponto de inquietação se deu pela organização ou ausência desta no que se refere ao entorno da praça matriz. Até a igreja, um dos cartões postais da cidade, sumiu ante o desarranjo estrutural de “pula-pulas”, camas-elásticas, arquibancadas, barracas e outros atrativos que só beneficiaram a iniciativa privada dos mascates tradicionais nestes tempos festivos e que nada ou pouco deixam de benefício na cidade. Desta forma, do que adiantou a intervenção modeladora da praça da matriz referida ante o exercício do “enfeiamento” daquela durante o principal ato do calendário cultural groairense? Honestamente, não compreendo! Espero que a crítica seja recepcionada como algo construtivo e não sirva de instrumento de desconstrução da minha pessoa.

Outro fato aterrador que, encerrada a Festa da Padroeira, continua causando estarrecimento é o furto de energia elétrica dos logradouros públicos no entorno da praça pela iniciativa privada sem intervenção do poder público constituído. O que vejo são pessoas lucrando com o utilizo de energia elétrica paga com o dinheiro do contribuinte. Isso não é entretenimento, é crime. Espero ansioso por uma solução benéfica para todas as partes.

O tempo passa e eu mais uma vez me deparo com inteligência bíblica: “É melhor topar com uma ursa que perdeu os filhotes, do que com um tolo dizendo idiotices” (Provérbios, 17:12). Então, para que não seja taxado de “idiota”, encerro esta escrita adunca, pontiaguda, concreta, intimista, libertadora... sincera. Cala-te “boca maldita”!

Groaíras-CE, 15 de outubro de 2017.
Augusto Martins Melo

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