MINHA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA ESCOLAR

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 05 de Novembro, 2021 - Atualizado em 05 de Novembro, 2021

MINHA PRIMEIRA EXPERIÊNCIA ESCOLAR

A casa era rodeada de fruteiras, mangueiras, goiabeiras, cajueiros, pitombeiras, com um telheiro enorme, apto a receber dezenas de crianças que, no afã de aprender as primeiras letras, de deixar, na página branca do caderno, um trilho de cores e de significação, acorriam diariamente ao velho casarão, a fim de fazer jus ao que se podia alegre e orgulhosamente cognominar de escola.

O terreiro, caprichosamente varrido, aos primeiros raios solares, servia de palco às brincadeiras pueris de uma infância campesina: buica, macacão, manja e escondido (esconde-esconde). Os maiores cuidavam de enfiar folhas de bananeira, de papel ou de mato seco, numa meia velha rasgada, para simularem uma bola de futebol. O mesmo anfitrião, que servia à meninada, dava lugar à partida de futebol, com direito à torcida organizada. O recreio era um festival de talentos, sons e cores. Dali muitos sairiam para a fama...

Não havia merenda, senão alguns bolachões secos trazidos de casa, manga, goiaba, ou um pedaço de beiju sem recheio, banana, coco, rapadura, manauê, pé de moleque... Os maiores ainda se encarregavam de jogar areia na acanhada refeição, levando os menores às lágrimas e ao desejo de revide. Uma ponta do lápis quebrada, um pouco de areia dentro da bolsa dos cadernos, ou um pó de cocô de galinha na cartilha... eram sinais visíveis de um revanchismo que se instala da mente humana, muito precocemente. Mas isso, muito cuidadosamente planejado, para escapar aos olhos da Professora

A Professora era uma jovem senhora, linda, distinta, bem falante, com cabelos longos e levemente caídos, com ares de princesa. Sua fala encantava a todos, seu cheiro invadia a sala do velho casarão, banindo o odor de suor de uma meninada que caminhou quilômetros para ali chegar. À entrada dela, todos se levantavam e a cumprimentavam, com um efusivo bom dia. Ela vinha com cadernos – mais de trinta – nos braços, pois passara parte da noite a corrigir os trabalhos de sala. Agora, haveria de os devolver, a fim de receber os deveres de casa. A Professora parecia a única luz em meio às trevas da ignorância rude de um recanto sacrossanto do meu torrão natal.

Eu não entendia muito desses tais deveres, pois minha ida ao casarão era mais por curiosidade, já que, com menos de seis anos, não se poderia matricular oficialmente na escola. Sabia fazer as vocais e os números, de zero a vinte, pois meu pai, o velho Bartolomeu, cuidava que todos os filhos, antes mesmo de irem à sala de aula, dessem conta da iniciação. Alguns até se destacavam na tabuada e levavam vantagens, na sabatina, pois não tomavam bolo de palmatória, por não responderem equivocadamente ao “sete vezes oito”? O cordel também nos ajudava a perder o medo e ler as coisas mais engraçadas dessa preciosidade que é a poesia popular.

Eu torcia para que uns tomassem uma infinidade de bolos, sobretudo aqueles que punham areia na “merenda” dos menorzinhos. Achava de uma perversidade sem tamanho. Mas vibrava, quando os mais próximos acertavam a tabuada na sabatina, porque poderiam se vingar dos malandros malfeitores do recreio. Aprender as operações básicas era uma questão de jogo, de medo de apanhar, de medo de chegar ao seio familiar, com as mãos inchadas de bolos de palmatória. Por isso, meu pai sempre fazia rimas com a tabuada, para que nós não nos esquecêssemos: “Sete e sete são quatorze; três vezes sete, vinte e um. Tenho sete amor no mundo, mas só quero bem a um...”

O sanitário era um buraco, sobre o qual ficava uma tábua, a fim de se evitar escorregos e acidentes que nos levassem literalmente a “ela”. Para o controle da distinta professora, uma pedra ficava sobre sua mesa. Se algum aluno lha pedisse, a professora dava dois minutos, a fim de que fosse devolvida, ensejando, destarte, que outra pessoa “apertada” pudesse se servir da “privada”. Esta ficava por entre as fruteiras, e as palhas de bananeira tinham importante serventia. O tempo era computado rigorosamente. A desobediência ao período determinado poderia redundar em proibições de idas futuras ao local do sacrifício. Era quase pena de morte! soube, certa feita, de um desavisado que se  desincumbiu dos deveres fisiológicos, ali mesmo, no ambiente acadêmico. Arre!

O pai da professora, dono do velho casarão, plantava melancias, na malhada, que ladeava o pomar e a casa. Vez por outra, um dos indisciplinados, ao sair à latrina, dava para a malhada, onde arrancava uma melancia do pé e a escondia cuidadosamente por entre as folhas secas ou por sob os matos secos amontoados. Tal propósito atendia a dois objetivos: esconder o roubo e esfriar o seu produto para ser devorado, à hora do recreio, de forma menos dolorida. Por vezes, a fome justificava tal indisciplina. Poucas famílias tinham o suficiente para as três refeições diárias. o inconveniente erea famélico. Se fosse descoberto, o autor do ato infrator ficaria de castigo, em geral, ajoelhado sobre milho, ou de pé, com o rosto colado à parede da sala de aula, e dali só sairia, se o pai ou a mãe viessem “soltá-lo”. O caminho de casa seria marcado por uma chuva de pancadas, uma surra de primeira grandeza, a "dança da corda bamba", o que lhe valeria umas vistosa manchas (patacas!), objeto de zombaria por uma semana inteira.

Eram tempos outros, cuja mentalidade era arcaica, mas a disciplina transformou vidas, retirou da insegurança muitas pessoas e lhes deu tino e rumo na existência a fora. Houve exageros, excessos, mas houve parcimônia, sensibilidade. A professora não apenas ensinava as letras e os números, mas tinha autoridade para passar valores que despertavam para a vida. Era difícil medir o que mais doía: ajoelhar-se no milho, ou receber uma “advertência” verbal daquela senhora jovem, elegante, simpaticíssima, cuja língua era afiada e hábil, na arte de mandar o recado. A educação avançou, com suas inovações, mas aquiesceu á indisciplina quase generalizadamente. 

Quem diria? O tempo passou, prédios modernos foram edificados, mas a educação foi, aos poucos, entrando em implosão... Embora houvesse mentores de uma educação inclusiva, libertadora, voltada para a realidade local, sempre existiu, da parte dos governantes, uma vontade enorme de desprezar a verdadeira ferramenta de liberdade, de dignidade e de cidadania. A escola de qualidade nunca foi prioridade. Ela liberta e forma para a vida. Para que cidadãos pensantes?

A minha primeira experiência escolar foi maravilhosa. Essa situação hostil era comum nas famílias, fazia parte do imaginário da época. Sem aquele casarão, sem aquela professora, sem a sabatina e sem a vontade de vencer, nada do que foi feito teria existido. A minha primeira experiência foi na escola rural, na casa de Seu Rosalvo de Ventura, com a eterna Professora Lourdinha Barbosa, uma musa da simpatia.

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