A FESTA DE SANTO ANTÔNIO CASAMENTEIRO

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 10 de Junho, 2022 - Atualizado em 10 de Junho, 2022

A FESTA DE SANTO ANTÔNIO CASAMENTEIRO

Do Cajueiro até a vila dá uma légua de lonjura... a estrada é empoeirada, e Zefa, todos os anos ajunta uma dezena e meia de filhos e filhas e os conduz, a pé, faça chuva ou faça sol à procissão do Santo Padroeiro. Cada um ganha uma roupinha nova, com sandálias de fivelas, ou com tamancos que não fazem feiura a seu ninguém. Para isso, trabalham, juntos, o ano inteirinho. Os mais crescidos, no cabo da enxada e do rodo de mexer farinha; os menores, catando castanhas de caju, na quadra certa, semeando esterco, plantando amendoim, tirando a ração para os bichos e raspando mandioca. Ninguém fica de fora das muitas ocupações.

Nas seis tarefas e meia, um palmo de terra pra bem dizer, a família de Zefa de Manué se vira como pode, para arranjar o sustento. É uma lida infernal, descomunal, que exige o suor salgado escorrendo pelas faces, irrigando a terra seca, nas ocasiões de intenso verão. Quando chove, no dia de São José, a coisa alivia e muito. Mas, quando São Pedro se intriga com esposo da Santíssima Virgem, o sol castiga e a lavoura brota acanhada, sem gosto pela vida. É um ano perdido... Quando assim acontece, não se compra um metro de chita, nem um palmo de fita. Nem se tem samba de coco, nem brinquedo de roda, nem acompanhamento de zabumba ou ajuntamento de forró. É um tempo triste... só se alivia, no mês de Santo Antônio, que exige a ida à vila, para a procissão, momento oportuno para se pagarem as promessas feitas.

Zefa se casou com Manué de Tila, por obra de um particular, que tivera com o Casamenteiro. Já contava dezoito anos e nunca se tinha botado para qualquer par de calças. Parecia não existir ou ter o tino de homem... suas irmãs, embora fossem de menos idade, já estavam todas casadas, com filhos, e ela no caritó, sem ter quem lhe esquentasse as costelas. Manué de Tila, seu primo, foi para São Paulo, onde passou uns tempos no serviço do café, mas, depois de certo período, se desiludiu e voltou para perto dos seus. Trouxe uma coisinha com que arranjou aquela quartinha de terra, onde ergueu o chalé. Não se demorou em se interessar por Zefa. Mas isso, somente depois da prosa que ela teve com Santo Antônio, numa reza que Cicila de Quitó arrumou, na Pedra do Rastro, depois da Igreja Velha. Dizem que Santo Antônio, a fugir para a quixabeira, deixou gravada, na pedra dura, à beira do Riacho dos Milagres, a marca de seu pé. Foi ali, com as duas mãos franzinas afagando o rastro do Santinho, que Zefa desabafou sobre sua solteirice.

Com menos de cinco semanas, Manué deu às caras. Veio de trem até o São Cristóvão e, de lá, pegou uma punga num pau de arara e se botou para o seu torrão natal. Era vistoso, rapaz maduro, com bem uns trinta anos, ainda solteiro, porque a estadia, em Mauá, foi de um sofrimento sem tamanho, com as horas contadas pelas toneladas de café colhido... não tinha feriado, nem dia santo; somente a sexta da paixão era respeitada... vida de doido! Foi Santo Antônio quem o fez desvanecer e retornar ao Cajueiro. Teve tempo de respirar aliviado e de espichar o olho miúdo e carente para as faces, queimadas da malhada, da filha mais velha de Zabé de Santaninha. Com seis meses, já estavam alí, naquele pedaço de mundo até o dia de hoje. Manué é homem bom... só bebe uma talagada, aos domingos, em presença de sua gente, sem farrear na cidade ou nas bodegas das redondezas... foi o único homem que Zefa conheceu e, juntos, tiveram dezoito filhos, dos quais Deus levou três. Uns dois foram movidos, e quinze estão aí para contar a história.

Nos anos de estiagem, a única alegria é a festa de Santo Antônio. As sandálias e as roupas do ano passado, tendo um jeitinho de cuidado especial, dão para enganar... em ano de privação, luxo não tem lugar. O que não se pode é faltar com Santo Antônio. Uma dúzia de ovos e uns dois capões são o suficiente para comprar pó e passar na cara das mocinhas... tá no tempo de se despertarem para alguém que seja botado pelo Padroeiro; alivia na luta para arranjar o sustento... Os molecotes, já taludinhos e com o queixo empinado, resistem em ir à procissão. Mas, com o jeitinho da mãe, apressam-se em se ajuntar aos amigos, para desfilarem atrás da imagem, botando o olho nas mocinhas que estão no percurso... Entre um “pelo sinal” e um “glória ao Pai”, muitas se deixam ver! Os cochichos começam assim mesmo.

A Festa de Santo Antônio é a principal. Não se pode perder um só ano, a menos que seja por doença do ar, ou espinhela caída, que deixa a gente sem dar um passo em pé. No carro de boi, no lombo dos animais, ou com o pé na areia, toda a família vai. Uns, para agradecerem pelos favores recebidos em forma de um casamento agradável; outros, para suplicar a melhor sina; só os rapazes vão para outros fins, com os olhos corrediços pelos calcanhares das mancebas devotas... Arre!

Se a quadra é de bom inverno, todos ganham roupa nova, a única do ano, para a festa ficar mais cheia de vida. Até loção de vidro, que os caixeiros trazem, substituem o óleo de coco nos cabelos. Pó de arroz, nem se fala! Se o tempo ajuda, a festa é de grandeza! E tudo, para oferecer o melhor ao Protetor. Manué ainda vê uma dúzia de foguetes, para soltar, ao meio dia, na frente da Matriz. Essa promessa, ele a fez nas terras do café, onde ganhou, com um sofrer sem dó, os tostões que lhe valeram a compra da terrinha onde assentou a família. Zefa nunca soube, mas é por lhe ter arrumado para esposa, que ele agradece a Santo Antônio. Tem medo de que ela fique botada de mais, se tomar ciência.

Outra forma de agradecer ao Casamenteiro é homenageá-lo, dando aos filhos o sagrado nome: Zé Antônio, Luiz Antônio, João Antônio, Manoel Antônio, Antônio Pedro, Maria Antônia, Antônio de Pádua, Antônio Rozendo, Antônio Marcolino, Joventino Antônio, Antonieta, Antonina Josefa, Antônia Maria de Lisboa, Lúcia Taumaturga e Maria Fernanda. Os que Deus levou emprestaram o nome aos que vieram depois. Com Santo Antônio, não se brinca.

Antes de saírem de casa, logo pelas cinco, Zefa dá as instruções: não se pode fazer feio; na igreja, nenhum pio; na procissão, todos fazem suas rezas de promessa ou de agradecimento; na casa de Dona Roquina do Finado Tonho de Belo, se ela ofertar um pires de doce, é pra dizer que tá tomando remédio de lombriga. Vocês não sabem comer de pires! Nada de faltar com o respeito, nem de se mostrar má educação. Se tudo ocorrer bem, eu compro uma bolsa de bolachão,  em Seu Zé Gordinho.

Pronto: de posse das recomendações, é hora de botar o pé na estrada, com o calçado dependurado nos dedos da mão. Na poça d’água, perto da Macela, todos lavam os pés e calçam as apracatas. Se procederem direito, no ano que vem, com fé em Deus, tem mais procissão, e com muita fartura, porque o Glorioso Santo Antônio não há de deixar faltar nada. Só é para mudar o sentido, quando entoarem o hino do Padroeiro e o padre dizer o “ite missa est”. “Se Deus tá nos permita, para o ano, já teremos fia casada”!

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