A SENTINELA DE RUBINO

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Nunes Peixoto, 29 de Julho, 2022 - Atualizado em 29 de Julho, 2022

A SENTINELA DE RUBINO

Lá para as bandas do Pamandu, próximo à Serrinha, do outro lado da estrada que dá para Malhador, residia Rubino, tocador de fole dos bons. Em qualquer adjunto que prestasse, estava ele, com outros dois moços, um na zabumba e outro no Triângulo, para fazer o arrasta pé acontecer. Num raio de três léguas, quando era balançar o esqueleto, com um Trio de Primeira, o nome era Rubino, tocador afamado que vivia de leilão em leilão, de folguedo em folguedo, com seu pé de bode.

Rubino nunca soubera ler nem escrever, mas aprendeu a arrancar as notas do pé de bode, numa facilidade tremenda. Na família, não havia tocadores. Sua velha mãe, Maximiliana, era afamada parteira e rezadeira nas sentinelas, por ocasião da morte de um conhecido. Tinha voz sonora, afinada, e sabia de cor as rezas, os lamentos e os aboios, próprios das noites de Sentinela. Conta-se que ela era iluminada, que nascera com o dom de rezar para os defuntos, na derradeira despedida. Seu Pai, não se sabe ao certo, que qualidades possuía, além de trabalhar, porque era caboclo do mato, sisudo, de mãos espessas, calosas e afeitas à enxada de três libras e meia. Além daquilo, só sabia fazer filhos e nada mais. Rubino era talentoso, praticamente um artesão: sabia fazer cesto com cipó de imbé, gaiola de fumo-brabo, canga de porco em forquilha, funda de pindoba, arapuca para cevas de cabeça vermelha, azulão e curió... era um mestre em arataca para preá, além de esteirar cangalha, forrando-a com a capa de couro de boi. Se soubesse fazer conta, ler e escrever, teria ganhado muitos tostões com a sua arte, mas não tinha muito tino para a administração de seus produtos. Só os fazia por encomenda e, quando recebia por algum, era uma pataca mirradinha, sem dá para um cabeça de boi, um quilo de bofe ou uma manta de jabá...

A vida só não lhe era mais dura, porque Rosita de Mané de Zé Capão lhe enchera os olhos e se tornara o grande amor de sua vida. Aprendera a dividir com ela os sonhos, as alegrias e a miséria em que vivia. Outro refrigério eram as tocadas no fole, um bálsamo para a alma, que o fazia viajar pelas nuvens, na tentativa de se esconder dos maus tratos que a vida lhe impôs. Quando o sol esquentava e queimava a espinha desnudada, brilhante de suor, era a hora de se amoitar à sombra de uma mangueira, pegar no pé de bode, e arrastar umas marchinhas, um forró, um samba e um xaxado, seu principal ritmo. No passado, a velha Maximiliana o ajudava, com a voz de ouro que possuia; nos últimos tempos, era Rosita, cuja voz era meio abafada, porque a pobrezinha sofria do mal da goela, de puxar, e quando dava para tossir eram horas a fio. Só se botava a cantarolar, para agradar o velho amor de sua vida.

Um dia, Rubino deixou de tocar. Já não tinha Maximiliana, nem seu pai, sem Rosita... Uma de suas filhas, Joventina, foi ao Jacarecica para lavar uns trapos e o vento passou, deixando a pobre escumando feito gia na boca de jararaca... Já a acharam sem vida. Aquele foi um dos derradeiros golpes que Rubino sofreu. Seus dias se empalideceram, suas mãos se puseram a tremer, seu tino já não era o mesmo. Para não morrer à míngua, uma outra filha se encarregou de cuidar dele. Nunca mais tocou, nem cantou, nem fez cesto, nem arataca. Se dependesse dele, nem um só bicho seria pego de tocaia. Cidinha era seu único recurso. As outras filhas foram viver longe, à procura de melhorias, mas nunca arrumaram muita coisa. Umas nem nova deram mais. Cidinha, embora tivesse tido um entrevero na mocidade, já passava dos cinquenta e se aquietou para o lado de homem. Seu viver era o caritó forçado e o velho pai, que fracassara de um jeito que não via a hora de Deus Nosso Senhor o levar para junto de Rosita e Joventina.

E foi o que se deu: numa tarde fria de Santana, ele apagou os olhos para numa mais... Um Vizinho montou-se num jerico e foi dar a nota na vizinhança. Antônio de Teodoro e Basto de Jerome vieram tirar as medidas para aprontarem o caixão. Já era boca da noite, quando o puseram no esquife, para darem início aos aboios lúgubres, que assustavam a meninada. A sentinela, sem a voz de Maximiliana, ficou sem graça. Já não se tinham mais enterros festivos, como no tempo antigo. Isaura de Zé de Sarafina veio do Congo, para remediar, pois tinha voz sonora, embora um tanto desentoada. Foi o refrigério!

A cachaçada rolava noite a dentro, varando as duas da manhã. Poucas pessoas se encontravam no Casebre e um mundo sem fim estava se aquecendo junto à fogueira de Jurema. Zé de Lorenço, já tragado da branquinha, deu uma de rezador e se pôs de joelhos à margem da urna funerária. Tentava balbuciar algumas palavras da reza, mas ninguém dava conta do que ele estaria falando. Como já não se equilibrava mais, recostou-se ao caixão. Pelas três da manhã, quando se rezava o Senhor-Deus, cobriram o caixão, e a barra da camisa de Zé de Lorenço ficou presa entre a base e a tampa do esquife.

Alguém convidou Zé para mais uma rodada de cachaça, o que era comum nas sentinelas de outrora, e ele se levantou devagarzinho... Quando, porém, percebeu que sua camisa estava sendo puxada para dentro do caixão, prorrompeu em lamuriento grito: "Me sorte, cumpade Rubino! Pelas Pestes, me Sorte"! Pronto! Estava desfeita a sentinela... as rezadeiras saíram correndo e ninguém mais tinha coragem de voltar. Enquanto isso, Zé não parava de gritar: "Me sorte, eu lhe peço, home"! Mané Doido, um sujeito que morava por alí e que tinha a fama de ser desmiolado, viu a camisa presa; veio com uma faca e cortou o pedaço do tecido. Zé de Lorenço se livrou do mal que o prendia, mas se desiquilibrou e caiu... o chão já estava molhado... Como Rufino gostava de folia, seu velório se tornou conhecido e ficou falado, nas quatro freguesias.

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