À hora nona ( por Mateus Melo )

Conto de terror

Mateus Melo, 10 de Julho, 2020 - Atualizado em 10 de Julho, 2020

À hora nona

Agora, no auge dos meus quarenta anos, vejo-me torturado e incomodado a escrever sobre uma reminiscência que me tem tomado todos os momentos de branco alvor na terra árida dos meus pensamentos. Quando jovem, minha família morava num longínquo povoado, incrustado no interior. Lugar de muitas árvores, muitos cajueiros, muitas jaqueiras frondosas onde passávamos as tardes em redes, logo após o almoço. Meu pai e minha mãe trabalhavam na terra, eram produtores de batata, macaxeira, cebola e tomate. Variedade de encher os olhos, nossos campos plantáveis eram vizinhos. No auge de cada estação podia-se ver todo o colorido alegre e pujante no lampejar da luz do sol por sobre as folhas verdes, enquanto o escasso vento das 4h da tarde passeava de um lado para o outro, bagunçando meus cabelos – que logo os tirava dos olhos -, amainando o calor e nos fazendo lembrar de como os invernos deixavam saudades.

Às noites, geralmente íamos para uma casa de amigos, era a mais próxima, a pé e conversando nem parecia ser longe, por entre plantações de milho e altas folhagens verdes de capim-elefante, bastante utilizado na alimentação pecuária. Sentíamo-nos como Moisés e os hebreus recém alforriados do jugo egípcio, atravessando aquele mar verde pelo estreito corredor de uma estradinha de terra, na qual uma bicicleta e uma carroça de burros, não conseguiam passar ao mesmo tempo. Estreita de verdade. Andávamos sempre à luz do luar, recheado de estrelas fulgurantes, a lua no seu posto de rainha enquanto as servas brilhantes à serviam de calor e majestade, enquanto produziam a luz que nos guiava na imensidão escura e verde. Lá, reuníamo-nos sempre ao entorno de uma pequena fogueira. Meus pais e nossos vizinhos conversavam de tudo que se poderia chegar a virar assunto entre uns poucos matutos. Meu pai, pessoa muito inteligente, ajudava nosso vizinho nalgumas dúvidas cotidianas: de como cuidar de pés de maracujá, de técnicas que aumentavam a produção de bananas nas bananeiras (lembro até de uma dica bastante engenhosa que meu pai sempre falava, consistia em colocar um prego no caule da bananeira, para que assim os cachos ficassem mais fortes e produzissem mais bananas por cacho, como ele descobriu isso, não me pergunte, eu também não perguntava, ficava sempre perplexo pela capacidade inventiva do meu pai, não sobrava tanto tempo pras perguntas) e outros truques mais, os quais a memória guarda nalgum lugar recôndito e que não me quer relembrá-los agora. Os assuntos eram os mais variados.

Graças a Deus eu tive a oportunidade de estudar, viajava umas 2h de ônibus para a cidade todos os dias, e sempre me dediquei aos estudos. Via nas letras o meu passaporte para um mundo melhor, mais humano e mais confortável do que eu vivenciava ao lado dos meus pais. E por sempre gostar, esmerava-me durante as semanas de provas. Os livros, um pouco velhos, afinal era passado de aluno para aluno todos os anos, ajudavam-me na fixação do que eu ouvia de minha professora, adoráveis lembranças tenho ainda da Sílvia. Deus a tenha. Num desses períodos de provas, informei aos meus pais que não iria à casa dos nossos vizinhos à noite como de nosso costume, ficaria a estudar. De princípio, eles ficaram temerosos por minha pouca idade, minha mãe achava inconcebível um pequeno ficar sozinho em casa, pior à noite. Porém meu pai, sempre inteligente e apaixonado pelo meu interesse nas letras, incentivou-a a me deixar em casa naqueles dias, acalmou-a quando lembrou-lhe de outros dias que eu havia ficado muito bem sozinho, durante a tarde quando precisaram ir ao médico. Ela assentiu.

Os primeiros momentos foram especiais, acendi uma vela, coloquei-a junto a mim na mesa, peguei meus livrinhos, meu caderno e alguns lápis, com uma faca próximo, para o apontamento. Mesmo trancado em casa, só com a única janela da casa aberta, que ficava na testa da casa, por um onde um vento fraco e frio entrava tentando me apagar a vela. Tratei de colocar-me de costas para a janela como que formando uma barreira contra o vento que buscava apagar a minha única fonte de luz. Comecei por estudar sobre a história do Brasil. Sempre a História me enchia a imaginação, saber como tudo tivera sido, saber como as pessoas viviam, saber dos seus males, das suas alegrias. Quanta coisa a humanidade guarda, quanta coisa eu poderia saber. Meu método de estudo era simples: eu ia lendo e quando encontrava algo digno de nota, anotava numa sequência em que os fatos relatados me fizessem enxergar um fio vermelho de vida que os ligava diretamente, que na minha mente pueril, pensava ser a pura e mais verdadeira reconstrução da história humana. Concentrava-me a valer.

Enquanto escrevia, com todo o cuidado e com a pouca luz de que me servia no momento, ouvi alguns batidos, de início não olhei. Pensei ser algo normal, talvez algum gato ou galinha, decidi não dar atenção. Os batidos insistiram e, como manda a mãe curiosidade, virei para olhar a janela, a qual estava a uns seis passos de onde eu estava sentado. Não vi nada. Voltei à leitura. Logo uns barulhos finos e estridentes começaram, o medo agora já vinha a cavalo, meu coração, em cada batida, parecia que sairia pela boca a qualquer instante. Olhava e nada via, o medo agora deveria ter se transformado em sangue, pois passeava pelo corpo todo. Um sangue gelado e sem rubor. O vento fraco e constante havia cessado. Os barulhos continuaram, e pude ver se aproximar da janela um fulgor azul celeste, uma como que candeia de gás, mas azul, azul e branca era a luz. Via somente essa claridade, as pernas, nervos e músculos não mais me obedeciam, eram a mim rebeldes naquele momento. Conseguia só manter o pescoço virado um pouco para trás, sentia-me a esposa de Ló, quando, na revelação, ao olhar para trás transformou-se em estátua de sal. Ali estava eu, olhando para trás e fixo. Estatuei-me.

O lampejo que via, agora começou a se movimentar de forma lenta pelo arredor da frente da casa. A voz não saía. Deveria ser à hora nona. Meus pais ainda não haviam voltado, o medo agora respondia por mim. Os barulhos antes estridentes, agora soavam calmos e lentos, o vento voltou a mexer um pouco nos meus cabelos, e a luz ficou mais fraca. Um forte vento deu dentro de casa pela janela de súbito, a conta certa para a vela apagar. A única fonte luminosa agora era a luz misteriosa fora da casa. A voz voltou, gritei. Não lembro o som que produzi, se havia sido alguma pronúncia ou somente som desconhecido, como som de angústia ante ao mal. Uma cabeça, de longa cabeleira apareceu na janela, pediu-me calma. Que estava somente cansada da andança na qual vivia. Falou-me para que largasse do medo e abraçasse a confiança. Tarefa impossível. Falou que seu nome era Sofia. Dizia ser uma parente que há muito havia morrido, ali naquela casa e avisou que todos os dias, à hora nona, gostava de se deleitar com uma xícara de café e leitura, na mesma mesa onde eu estava.

Ouvi ao longe o barulho do ferrolho de ferro grande com que a porteira do nosso sítio era fechada, o medo e o estranhamento agora desfaziam-se em forma de suor por meu corpo. A cor me tinha fugido, assim como a mulher que havia visto. Senti somente um beijo frio no respingar lânguido e opaco do meu rosto. A vela voltou a ficar acesa, mesmo sem eu ter produzido fogo. Meus pais chegaram com meu irmão contando da novidade, a filha do nosso vizinho estava grávida de uma menina, e para mais me espantar o nome escolhido era o mesmo nome que havia ouvido da mulher em meio à luz branco-azulada, era Sofia.

 

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