Lealdade e devoção a uma causa (por Carlos Pinna Junior)

por Carlos Pinna Junior

Carlos Pinna, 26 de Fevereiro, 2021 - Atualizado em 26 de Fevereiro, 2021

Hiroo Onoda, emblemático soldado japonês, combateu fervorosamente na Segunda Guerra Mundial em defesa de sua pátria. Em 1945, quando o acordo do fim da guerra foi firmado, lutava em meio às selvas filipinas. A notícia de que o Japão havia se rendido aos americanos chegou-lhe, mas Onoda recusou-se a acreditar e, ao contrário de seus companheiros, continuou na selva por mais 29 anos, enfrentando um inimigo não mais existente.

Nada demoveu Hiroo Onoda da promessa de jamais desatender a ordem que recebera no início da guerra: “pode levar três anos, pode levar cinco, mas aconteça o que acontecer, nós vamos voltar até você”, dissera-lhe o seu superior. Leal e disciplinado, ele manteve a confiança nessa promessa e permaneceu na selva, quando, em 1974, esse mesmo ex-comandante, descobrindo o incrível comportamento do seu ex-subordinado, foi às Filipinas implorar-lhe para que voltasse para casa, atestando-lhe que a guerra tinha findado há quase três décadas. Onoda, afinal, regressou ao solo japonês, onde foi condecorado pelo governo e perdoado pelas atitudes inadequadas em seu combate particular e imaginário.

A história de Hiroo Onoda – autêntica, extraordinária e fascinante – oferece-nos diversas lições: a lealdade a uma causa; a fidelidade a um compromisso; a crença inabalável em um princípio; a resistência às circunstâncias contrárias a um objetivo.

Não é difícil imaginar que manter-se lutando durante todo aquele tempo em meio às selvas filipinas não foi uma opção, mas, em verdade, o único comportamento que preenchia a mente de Onoda. Ainda que todos tivessem se rendido, sua índole não alcançava outra atitude senão a de cumprir a sua obrigação, parecendo buscar ânimo para cada ato, cada passo, cada suspiro, na legendária frase de Victor Hugo: “e se restar apenas um, esse serei eu”. Esse mote, tão bem concretizado na bravura utópica de Onoda – afinal, de fato, restou apenas ele –, é verdadeiramente um tributo à lealdade e deve servir de exemplo para todas as relações humanas.

Razões pelas quais lutar é o que move a humanidade. Não à toa, a história demonstra que os grandes personagens foram aqueles que se mantiveram fiéis às causas que defenderam, custe o que custasse. E lealdade e devoção a uma causa é justamente o que mais nos falta na atualidade, seja nas relações sociais, profissionais, religiosas, familiares, políticas, institucionais, desportivas, culturais, jurídicas, dentre tantas outras. Comprometer-se com um ideal é um ato sagrado e que em tempos de “sociedade líquida” parece cada vez mais quimérico, já que, segundo Bauman, vivemos a fase em que “nada é feito para durar”, inclusive (ou sobretudo) os ideais e princípios.

Para alguns, a conduta de Onoda induz à insanidade. Para outros, remete ao heroísmo. O fato é que o seu comportamento, para além da aparente insensatez de continuar solitariamente uma guerra já cessada, produz a sublime constatação de que as convicções pessoais são inabaláveis quando verdadeiras. Para o resistente soldado Onoda, a guerra só terminaria com a vitória ou com a morte, jamais com a rendição. Essa foi a razão pela qual se manteve inarredável por 29 anos, devoto à causa que abraçou e ao compromisso que assumiu.

Em qualquer atividade humana, dentre as quais se insere a nobilíssima atividade da advocacia, a fidelidade, a lealdade e a devoção a uma causa (em sentidos estrito e lato) serão sempre sagradas virtudes, das quais não se deve jamais abrir mão. Com a grandiosidade de seu espírito, Hiroo Onoda, o herói de uma guerra inexistente, deixa-nos uma eterna lição através de seu comportamento e de suas palavras, repletas de virtudes: “com integridade – na qual se inclui sinceridade, lealdade, devoção ao dever e senso de moralidade – pode-se resistir a todas as dificuldades e, no final das contas, transformar as próprias adversidades em vitória”. O mundo precisa disto.

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