Última semana de programação será até 14 de setembro; continuidade da gestão e da operação depende de novo Termo de Cessão e de apoio público
A AVBR Produções, responsável pela administração do Cine Walmir Almeida, informa nesta terça-feira, 8, que o cinema terá sua última semana de funcionamento antes de suspender as atividades por tempo indeterminado. A programação segue normalmente apenas até o dia 14 de setembro e, a partir do dia 15, o espaço estará fechado, sem previsão de retorno. A suspensão ocorre diante da necessidade de definição, pela Prefeitura de Aracaju, por meio da Secretaria Municipal da Cultura (Secult Aju), dos novos instrumentos públicos necessários para a continuidade da gestão e da operação do cinema.
A AVBR Produções vem administrando o Cine Walmir Almeida por meio dos instrumentos públicos que possibilitaram sua atuação no espaço e a manutenção do projeto. Para continuar responsável pela gestão da sala, é necessário um novo Termo de Cessão do espaço. Além disso, é necessário um mecanismo de apoio e fomento público que assegure as condições para o funcionamento do cinema, incluindo a manutenção da estrutura, da programação, da qualidade das sessões e de preços acessíveis ao público.
O interesse em regularizar e definir o funcionamento já havia sido anunciado pela Prefeitura de Aracaju no dia 17 de julho, com a realização de uma escuta pública sobre o projeto, reunindo artistas, produtores culturais, profissionais do audiovisual, representantes da sociedade civil e demais interessados. Na ocasião, a Secretaria informou que as contribuições serviriam de subsídio para a construção das próximas etapas de funcionamento do espaço e anunciou a elaboração de um novo edital para o credenciamento de empresas interessadas na gestão da sala.
Na oportunidade, foi sinalizado que o processo relacionado ao Termo de Cessão seriam encaminhados até agosto. O prazo, porém, chegou ao fim sem essa oficialização e sem a publicação de um novo edital e, até o momento, não houve definição dos novos instrumentos.
A suspensão, portanto, não é uma decisão desejada pela administração do cinema, mas uma medida que se tornou necessária diante da ausência das condições públicas necessárias para a continuidade da operação.
“A gente lamenta muito ter que tomar essa decisão, que se faz necessária porque, nas condições atuais, não há como manter as operações. A Prefeitura realizou a escuta pública, sinalizou a publicação do novo edital e a definição do Termo de Cessão, mas até o momento nada foi efetivado. Continuamos aguardando essas definições porque queremos continuar administrando o espaço já consolidado ao público, mantendo o cinema funcionando”, afirma Deyse Rocha, gestora da AVBR Produções, empresa cadastrada na Agência Nacional de Cinema (Ancine) para operação do equipamento cultural.
Segundo Rosângela Rocha, coordenadora do espaço, a suspensão não representa uma desistência do projeto. “A gente quer continuar. O cinema tem uma história, tem público e tem uma função importante para a cidade. O nosso desejo é que essa situação seja resolvida e que possamos voltar a abrir as portas. Mas, neste momento, não conseguimos dizer quando isso será possível”, lamenta.
Incentivo público
Em maio de 2025, o Cine Walmir Almeida voltou a integrar a programação cultural do Centro de Aracaju e, desde então, consolidou uma rotina de exibição cinematográfica. A requalificação da sala e o início das atividades do cinema foram viabilizadas a partir de políticas públicas de incentivo à cultura e ao audiovisual. O projeto foi contemplado pela Lei Paulo Gustavo, por meio do Edital nº 006/2023 – Tarcísio Duarte/Audiovisual, da Fundação de Cultura e Arte Aperipê (Funcap), e do Edital nº 011/2023, da Fundação Cultural Cidade de Aracaju (Funcaju).
O apoio possibilitou investimentos relacionados à digitalização e manutenção da sala, criando as condições para a criação de uma programação audiovisual regular. Em pouco mais de um ano, foram mais de 600 sessões, aproximadamente 11 mil espectadores e 170 títulos exibidos, sendo 136 internacionais e 36 nacionais. O cinema também ultrapassou a exigência estabelecida pela Cota de Tela, ampliando a presença do cinema brasileiro em sua programação.
Os resultados demonstram que os investimentos públicos realizados permitiram não apenas recuperar a estrutura física e tecnológica da sala, mas também consolidar um equipamento cultural com público, programação regular e relevância para a cidade.
Rosângela Rocha, coordenadora do cinema, ressalta que a principal conquista desse período foi justamente a relação estabelecida com os espectadores. Ela analisa a dificuldade em interromper esse processo sabendo que existe público e que as pessoas querem continuar frequentando o espaço, bem como lembra que o cinema passou a fazer parte da rotina de muitos aracajuanos.
“Os editais anteriores foram fundamentais para que o Cine Walmir Almeida pudesse chegar até aqui. Houve investimento, o espaço foi estruturado, o funcionamento garantido e o público consolidado. Agora precisamos que esse processo tenha continuidade. Não faz sentido recuperar, estruturar e consolidar um equipamento cultural e, depois, não garantir as condições para que ele continue funcionando”, destaca Rosângela.
Cinema de rua
A manutenção de um cinema de rua possui características diferentes das de uma sala inserida em um grande complexo comercial. Além da estrutura permanente necessária para manter o equipamento em funcionamento, existe o compromisso com uma programação diversificada, com acesso a diferentes cinematografias e a obras que nem sempre encontram espaço no circuito comercial.
No Cine Walmir Almeida, o apoio público também permitiu trabalhar com preços acessíveis, sem abrir mão da qualidade da estrutura e da programação. “Um cinema de rua desse porte não consegue se sustentar apenas com a receita de bilheteria. Existe toda uma estrutura necessária para manter a sala funcionando, além de equipe de atendimento ao público, manutenção, curadoria, comunicação e operação. Ao mesmo tempo, queremos oferecer uma programação de qualidade e manter preços acessíveis. O fomento público é fundamental para que essas coisas possam acontecer juntas”, explica Deyse.
A política de incentivo público, nesse contexto, não representa apenas o financiamento de uma sala de exibição. É um mecanismo que permite a existência de espaços culturais que cumprem uma função social e que não precisam se submeter exclusivamente à lógica comercial. Também cria um espaço de encontro e convivência e aproxima diferentes públicos da cultura.
Revitalização do Centro da cidade
A localização do Cine Walmir Almeida também é parte importante de sua função cultural. Instalado no Centro de Aracaju, o cinema contribui para a circulação e a ocupação cultural da região, levando pessoas ao Centro para uma atividade que vai além do consumo comercial. A presença de equipamentos culturais ajuda a manter áreas centrais vivas, criando espaços de encontro, convivência e acesso à cultura e contribuindo para a valorização do território.
Para Rosângela Rocha, quando um cinema funciona no Centro, ele movimenta muito mais do que a própria sala. “As pessoas vêm assistir a um filme, circulam pela região e ocupam o espaço urbano. Um cinema de rua funcionando em um prédio público também é uma forma de valorizar o Centro e reconhecer a cultura como parte da vida da cidade”, garante.
Última semana
Até 14 de setembro, o Cine Walmir Almeida mantém sua programação normalmente. Será a última semana de sessões antes da suspensão por tempo indeterminado. A partir de 15 de setembro, o cinema permanecerá fechado até que sejam definidos os novos instrumentos necessários para a continuidade da gestão e da operação do espaço. Neste momento, não há previsão de retorno.
A administração do cinema permanece aguardando a publicação do novo edital para o credenciamento de empresas, a definição do Termo de Cessão e os mecanismos de apoio necessários para garantir a continuidade das atividades.
“O Cine Walmir Almeida quer continuar funcionando. Temos público, temos uma história de resultados e temos um espaço que cumpre uma função cultural importante para Aracaju. Estamos aguardando que o poder público dê continuidade a esse processo, com a publicação do edital e os mecanismos de apoio necessários para que o cinema possa voltar a abrir as portas”, reforça Deyse Rocha.
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