Ao chegar, Belém recebe com calor úmido que mistura fé, suor e comércio. Feiras e romeiros lotam as ruas, revelando como clima, cultura e economia se entrelaçam nos dias de festa.
Ao chegar a Belém, a primeira sensação é o calor úmido da cidade. É uma impressão que muitos reconhecem nas conversas de rua e no movimento das feiras, e a definição popular costuma ser direta:
“Belém é uma cidade quente”
O calor não é só meteorológico: vem junto com a aglomeração, o suor e a energia das pessoas. A observação não pretende romantizar a vida local nem a produção artística; trata-se de um relato sobre como clima, cultura e economia se entrelaçam em dias de festa.
Historicamente, Belém se formou dentro da Floresta Amazônica e hoje convive com problemas que marcam a ocupação urbana: prédios históricos abandonados, gentrificação em áreas turísticas e a especulação imobiliária que afetam modos de vida tradicionais, como o ribeirinho. O intenso tráfego de embarcações provoca erosão e assoreamento das margens ocupadas por palafitas, prejudicando a pesca artesanal e o meio ambiente.
Os mestres e mestras da cultura popular muitas vezes ainda precisam conciliar a arte com outros trabalhos para garantir sustento e dignidade. É o caso de histórias como a de Mestre Vieira (1934-2018), que morreu por complicações de saúde e deixou contribuições para a cultura paraense e a memória entre amigos, além da guitarrada e das apresentações em shows.
A gastronomia e os aromas da cidade também marcam o período do Círio. O evento tem raízes de influência portuguesa e é associado a uma tradição que remonta ao final do século XVIII: fala-se que a primeira procissão para a santa aconteceu em 1793. O Círio começa no segundo domingo de outubro e, durante 15 dias, reúne manifestações culturais, artísticas e religiosas em torno de Nossa Senhora de Nazaré.
O período conhecido como quadra nazarena cresceu e ocupa hoje todo o mês de outubro e as primeiras semanas de novembro; a festa é chamada por muitos de “o Natal paraense”, com a cidade enfeitada por luzes e decorada para a devoção. As ruas ficam impregnadas pelo cheiro das comidas típicas, com o preparo do pato no tucupi e da maniçoba, que precisa de sete dias de cozimento para eliminar o veneno natural da folha de mandioca.
No circuito festivo do Círio 2026, convivem manifestações como o Arraial do Pavulagem, o Carimbó do Grupo Sancari e o Festival Lambateria. O Arraial do Pavulagem é um movimento cultural com cerca de 28 anos, que nasceu nas festas juninas e hoje estende sua atuação ao Círio e ao Carnaval. O Grupo de Carimbó Sancari tem cerca de 30 anos e mantém músicas e danças tradicionais do carimbó no circuito.
Para seguir o ritmo do Círio é necessária disposição: o sol forte durante o dia pesa sobre os romeiros. Há diferentes formas de acompanhar a peregrinação por Nossa Senhora de Nazaré: a Romaria Fluvial, a Moto Romaria ou a caminhada a pé. Quando a Romaria Fluvial chega à Escadinha das Docas, o Pavulagem prepara o cortejo; ao mesmo tempo a Moto Romaria parte para seguir a santa. Quem participa pode escolher entre seguir a santa sobre duas rodas, acompanhar o percurso do Pavulagem até a praça Dom Pedro II, ou assistir às apresentações no Boulevard da Gastronomia.
A musicalidade de Belém tem referências que aproximam a cidade do Caribe e de sonoridades latinas, com influências que se misturam ao carimbó, ao brega e à guitarrada. Entre os mestres vivos, Mestre Curica, de 77 anos, se apresenta há cerca de 60 anos e contribui para a manutenção dessas tradições. Vieira também é referência quando se fala de lambada e guitarrada; seu disco “Lambada das Quebradas” integra as memórias da cena local.
Dai-nos a bênção bondosa, Nazinha

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