A preocupação com o ressurgimento da cólera aumenta no Iêmen, onde o sistema de saúde já enfrenta grandes dificuldades após uma década de guerra. O cenário atual deixa milhares de pessoas em maior risco, à medida que o número de casos suspeitos continua em ascensão.
No pronto-socorro do Hospital Al Jumhouri, localizado na província de Taiz, no sudoeste do Iêmen, as equipes médicas trabalham incessantemente para atender os pacientes acometidos pela doença, que é transmitida pela água. Casos graves de desidratação têm levado a um aumento nas internações de urgência.
Fatima Qaed, de 60 anos, moradora de Taiz, compartilhou sua experiência ao enfrentar a doença: “Primeiro veio uma diarreia intensa. Suportei a dor por dois dias, mas, no terceiro, comecei a vomitar muito. A diarreia e os vômitos não paravam. É uma doença implacável e muito grave. Eu nem conseguia dormir. Sentia que estava morrendo. Já tenho pressão alta e diabetes, então fiquei apavorada com a possibilidade de meu estado piorar. Quando me disseram que eu estava com cólera, fiquei extremamente assustada”, contou.
O caso de Fatima não é isolado. O Iêmen enfrenta atualmente um novo aumento nas infecções. De acordo com os dados mais recentes da OMS (Organização Mundial da Saúde), quase 5 mil casos suspeitos de cólera e diarreia aquosa aguda foram registrados desde o início de 2026, além de sete mortes.
A maioria dos casos, registrados desde o fim de abril, concentra-se em áreas controladas pelo governo iemenita reconhecido internacionalmente, incluindo Taiz. Autoridades locais de saúde alertam que o surto é impulsionado por crises profundas e prolongadas que afetam o país.
“Em relação à atual situação epidemiológica no Iêmen, várias doenças e surtos estão se espalhando pelo país, e a cólera é um deles. A cólera é uma doença alimentada pela guerra e pela redução da ajuda financeira internacional nos últimos anos”, afirmou Tayseer Al-Samaei, porta-voz do Departamento de Saúde de Taiz.
Este surto coloca o Iêmen entre os países mais afetados pela cólera no mundo, ocupando a sétima posição global em número de casos suspeitos e a segunda na Região do Mediterrâneo Oriental da OMS, atrás apenas do Afeganistão.
A OMS alerta que a continuidade da disseminação da doença está diretamente ligada à deterioração dos serviços de abastecimento de água e saneamento, à fragilidade do sistema de saúde e à escassez crítica de profissionais e insumos médicos. Com o acesso à água potável ainda sendo um dos principais desafios, evitar a infecção e sobreviver à cólera tornou-se uma dificuldade diária para famílias que já vivem sob o peso de anos de conflito.
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