Em El-Obeid, mais de 500 mil moradores enfrentam ataques aéreos de drones que têm derrubado rotinas e ampliado o terror cotidiano. Moradores, como Elsadig, dizem que não há onde se esconder.
Os ataques de drones têm se tornado uma realidade aterrorizante para os civis em El-Obeid, cidade sitiada no Sudão. Os moradores, como Elsadig, de 27 anos, expressam que “você não pode se esconder de um ataque de drone”. A rotina diária, antes marcada pelo temor de combates terrestres durante a guerra civil sudanesa, agora é marcada pela ameaça constante do que vem do céu.
El-Obeid, um importante polo comercial e de ajuda humanitária com mais de meio milhão de habitantes, tem sido palco de ataques aéreos. No final de junho, Elsadig estava em um posto de caminhões-pipa quando um ataque de drone o deixou gravemente ferido, resultando na perda de sua perna esquerda. Em um incidente similar, Ahmado, um motorista de caminhão de esgoto de 42 anos, perdeu seu filho de 9 anos, que foi atingido quando se aproximava do pai após a escola.
“Meu dia havia começado como qualquer outro. Havia drones voando sobre nossas cabeças, mas eu jamais imaginei que meu filho ou eu nos tornaríamos um alvo”, disse Ahmado.
A tragédia ocorreu após horas de busca pela criança, cujo corpo foi encontrado em um caminhão carbonizado. Os relatos de medo são comuns. Elsadig menciona: “Quando ouvimos que há um drone no ar, tentamos nos abrigar em um prédio de concreto. Mas ele vem de repente — não sabemos quando nem onde vai atacar”.
Os ataques aéreos em El-Obeid refletem uma mudança significativa na dinâmica do conflito, que se intensificou desde abril de 2023, quando as disputas de poder entre os ex-aliados Abdel Fattah al-Burhan, chefe das Forças Armadas do Sudão, e Mohamed Hamdan Dagalo, líder das Forças de Apoio Rápido, resultaram em uma guerra civil. O conflito já causou dezenas de milhares de mortes e deslocou mais de 14 milhões de pessoas, levando a ONU a classificar a situação como a pior crise humanitária do mundo.
À medida que drones fabricados no exterior se tornam mais comuns, as Nações Unidas alertam para uma nova fase do conflito, que pode ser ainda mais letal. Apenas nos primeiros quatro meses de 2026, ataques aéreos resultaram na morte de pelo menos 880 civis, representando mais de 80% das mortes de civis registradas.
A guerra, que começou como um confronto terrestre, evoluiu para uma batalha aérea. Ambos os lados, SAF e RSF, têm ampliado suas capacidades aéreas, utilizando drones comerciais modificados e sistemas militares avançados, mudando as táticas de combate e deslocando o foco das operações terrestres.
Os drones são utilizados para monitorar movimentos, apoiar operações e atacar alvos, incluindo infraestrutura civil. Essa nova tecnologia também altera o ritmo do conflito, permitindo operações contínuas mesmo durante a estação chuvosa, quando deslocamentos terrestres se tornam difíceis.

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