Quando o Foo Fighters encerra a primeira noite, a produção já desmonta o palco enquanto o público vai embora. A operação funciona 24h em três turnos, montando, testando e ajustando para o próximo show.
Quando o Foo Fighters tocar os últimos acordes de “Everlong”, na madrugada do dia 4 para o dia 5 de setembro, a primeira noite do Rock in Rio poderá até ter terminado para o público. Mas não para quem trabalha na produção do evento. Assim que a banda entra no camarim, uma equipe já começa a desmontar o palco, porque em poucas horas a música vai voltar.
A operação é uma engrenagem que funciona 24 horas por dia durante os dias de festival, dividida em três turnos. O que para o público parece uma sequência de shows é, para a produção, uma sucessão de montagens, desmontagens, testes e ajustes. A correria, porém, começa bem antes: assim que um artista é confirmado no line-up, entra em cena o Artist Relations, responsável por articular transporte, hotel, vistos, backstage e direção técnica.
A produção precisa entender como cada artista trabalha, o que ele leva para a estrada e quais adaptações são necessárias para que o show caiba na estrutura da Cidade do Rock. Apesar do festival ser gigante, o palco tem uma estrutura-base — teto, boca de cena, LEDs e som já definidos — e o que muda são os elementos acrescentados ou adaptados. Um artista pode pedir um LED central maior. Outro pode precisar de uma mesa de luz específica. Há quem traga instrumentos próprios e quem prefira alugar no país.
A iluminação é um dos pontos em que a negociação fica mais evidente. “Existe um limite estrutural do que o teto é capaz de suportar, e trabalhamos a partir dele”, explica Anna Clara Chermont, diretora de produção artística da Rock World. Em 2024, um headliner pediu que o LED traseiro do palco fosse ampliado. A produção tinha uma hora para executar toda a operação: montagem, processamento e testes. Não havia espaço para erro.
“Logo depois que o Foo Fighters termina o show, começa o ‘load-out’, porque o Avenged Sevenfold já está chegando para iniciar o ‘load-in’ para o dia seguinte”,
O número de pessoas envolvidas varia conforme a necessidade: a produção artística parte de uma equipe-base de nove pessoas e pode chegar a 300 profissionais durante a operação. Até pequenos detalhes exigem atenção máxima. Em um caso lembrado pela equipe, um artista solicitou um microfone de uma cor específica que não constava no rider; a solução foi buscar um fornecedor local e pintar o microfone.
No backstage, o improviso faz parte do trabalho, sempre com o objetivo de não chegar ao público. Muitos pedidos de camarim podem parecer extravagantes, mas visam dar conforto a artistas que passam semanas fora de casa e, horas depois, sobem ao palco para tocar diante de dezenas de milhares de pessoas. Itens como tapetes de yoga, velas e alimentos que remetam à cultura do artista são comuns.
No dia dedicado ao k-pop, o festival terá um catering com pratos coreanos como forma de acolhimento e respeito à cultura dos artistas. A cultura do bem-estar também tem ganhado espaço nos camarins: incensos, velas e óleos aparecem com frequência. Houve casos curiosos, como a entrega de uma garrafa de vinho muito cara, que chegou cinco dias antes do festival e foi guardada no cofre do CFO da produção até o dia do show.
Para a diretora de produção, os maiores desafios nos bastidores envolvem relações humanas mais do que problemas técnicos. Equipes diferentes, expectativas distintas, cansaço e pressão exigem capacidade de diálogo. O fazer funcionar sem que o público perceba é o objetivo: quando o artista entra, as luzes acendem e a música começa; o fato de ninguém reparar no backstage é sinal de que tudo deu certo.
LEIA TAMBÉM
Receba as notícias no seu WhatsApp
Entre no nosso canal oficial e fique por dentro de tudo que acontece em Sergipe
Entrar no canal →

