O RIO GRANDE QUE CHORA

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Peixoto, 14 de Maio , 2024 - Atualizado em 14 de Maio, 2024

O RIO GRANDE QUE CHORA

A criancinha de colo sente a falta de sua mamãe, que não mais chegará. Ela sequer tem consciência do que está vivenciando. O ancião – que já deixou de andar, faz tempo – insiste em gritar, chamando por sua velha companheira, que não mais respira... Os adultos parecem ter sumido, num turbilhão barrento de águas impetuosas, que invadem todos os cômodos, num segundo só, deixando tudo opaco, sem qualquer possibilidade de luz. Seria este o fim do mundo, tão propalado pelos radicais da religião do caos?

O horizonte está invisível...tudo é nuvem que faz cair ainda mais a chuva, que já se faz tão intensa que a terra parece não suportar. Os vales, as baixadas e os córregos se emendaram aos grandes leitos, tornando-se unidos a ponto de se ver apenas águas. Não se veem pessoas, nem carros, nem árvores, nem as casas... tudo foi tragado pela impiedosa avalanche de lama e água, que tomou conta de tudo e de todos. Os arranha céus estão de pé, mas alguns já dão sinais de fraqueza... Falta tudo, mas sobram estupidez e desonestidade, razões certeiras do quadro que se instalou no Rio Grande do Sul.

Os ares encobertos de nuvens são navegáveis apenas por helicópteros, que procuram, num autêntico frenesi, por sobreviventes que estão sobre tetos, na copa de árvores maiores, presos ao nada, seguros nos próprios sonhos e esperançosos por salvamento. Todo o bairro, a cidade inteira, virou um único oceano. Não há agasalhos, nem chão; não há comida, nem água potável; não há remédios, nem leitos, nem vias por onde transportar os que sobraram... não há mais nada a que se agarrar. Enquanto houver força, a palha da palmeira segura contra a correnteza... a força cede, a palha se solta, e o pobre homem rola pela enxurrada, para nunca mais ver o Rio Grande que se tornou um grande rio!

Por outro lado, gente especial que, embora padecendo dos mesmos suplícios, encontra força para sorrir, divertir, animar e alentar. Mais: está de pé, correndo atrás dos abrigos e dos alimentos, servindo água, lençol quentinho, uma marmita, um pedaço de esperança. É gente de fé na vida, que se distingue por fazer o bem, por não perder tempo espalhando inverdades, desânimo e medo. Ao contrário, apesar de tantas dores, encontra razões para servir, para ser presença edificante, como uma luz que atravessa o túnel escuro e extenso para revelar um mundo melhor, em que o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhe fartamente. Essa gente, que é anônima, sem holofotes e sem o reconhecimento público, sabe porque serve.

Bombeiros, médicos, enfermeiros, pessoas do povo, civis de todas as profissões dão-se às mãos, para aliviar pranto tão estrondoso. Fazem-se anjos, irmãos, pais e mães, filhos... fazem-se próximos, aquecendo com a ternura de um abraço os corações esfriados pelas perdas. Um abraço... um olhar de afeto marcará para sempre aqueles pobres, que perderam tudo, inclusive sua família e seus bichinhos de estimação. Para quem faz parece pouco; para quem recebe é incrivelmente tudo que gostaria de receber!

O Rio Grande entristeceu, emudeceu e apenas chora... não mais existem espaços para lágrimas tão vorazes, que cospem para fora da vida gente pobre, classe média e gente rica. Os poucos espaços, que restaram incólumes, estão repletos de pessoas sem saber o que será e como será o futuro. Há muita gente se perguntando pelos parentes, pelo bebê, pelo vovô, pela mãe acometida de AVC, pelo irmão que não pode se locomover... As lágrimas humanas parecem aumentar a força da correnteza, que vai levando tudo o que vê, com uma força descomunal. É choro dolorido, desesperado, sem consolo e sem remédio. É choro de suor e sangue, cuja frustração não reside somente na perda total dos bens, da casa, do carro, dos documentos, nem nas perdas de entes queridos. É mais dolorido ainda, por saber que, daqui a pouco tempo, o Rio  Grande poderá prantear novamente...

Ah, quantas lágrimas ainda serão necessárias, para que os “cuidadores” do povo, aquela gente que tem varinha mágica e, num estalar de dedos, sabe dizer todas as soluções necessárias, sobretudo nos meses de agosto e setembro próximos, possam tomar tenência? Quantas vidas o grande rio vai levar para o oceano das brumas amargas da inexistência? Quanto de verbas vai ser desviado, a fim de que a indústria das enchentes, no Sul e no Sudeste, tal qual a da estiagem, no Nordeste e no Norte, continue tragando sonhos, alquebrando famílias, tirando o gosto pelo viver?

Enquanto o Rio Grande chora, choram milhares de desabrigados, empresários dos mais variados segmentos, comerciários, produtores rurais, trabalhadores, biscateiros, ambulantes, gente do campo e da cidade, nivelados pela régua da indiferença e dos descasos com as pessoas e com a Natureza. Pessoas de classes distintas, por vezes antagônicas, veem-se irmanadas na dor de irreparáveis perdas. Perdas de pessoas e de patrimônio, perda da dignidade...

Aqueles que se alegraram com a permissão de “passar a boiada”, numa alusão clara ao afrouxamento das normas coibitivas do desmatamento, da exploração de minérios, devem estar assistindo de camarote à passagem das abundantes águas por sobre todas as boiadas, imergindo-as no redemoinho da morte, sem lucros. Onde estará a boiada a essa altura? E os vaqueiros que, covardemente, montam em super "cavalos" e fogem para recantos bem distantes, nos quais se protegem e se esquecem de quem se enlameou no pranto?

Ah, Rio Grande, chora o teu choro, mas desperta para a reconstrução da vida, onde as águas não recobram seu lugar. Desperta para vida e sai do torpor que te leva às lágrimas anuais. E não digas que é culpa da divindade, que é fruto do acaso, que é um mal inevitável, de força maior! Não! É fruto da irresponsabilidade de quem governa para uns e não para todos. É consequência de quem apenas enxerga a oportunidade de lucrar. Mais do que prejuízos, a reconstrução de cidades em locais seguros é investimento. Não adianta estar abarrotado de lenços, para o pranto... É preciso estar cercado do sorriso, da paz interior, da sensação do dever cumprido, mesmo que para isso, o lucro dê lugar à vida de todos os cidadãos. Chorar, somente de alegria, Rio Grande!

                                                                                                                                                                                                           Jerônimo Peixoto

 

 

 

 

 

 


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