Regina Duarte: uma mulher de coragem

17 de Fevereiro , 2020 - Atualizado em 17 de Fevereiro, 2020

Regina Duarte: uma mulher de coragem

Por Carlos Braz

Desde que se comprometeu a refletir sobre a proposta de ocupar o cargo de Secretária de Cultura do governo Jair Bolsonaro a atriz global Regina Duarte passou a sofrer violentos ataques pessoais que partiram de setores esquerdistas da política e do meio artístico brasileiro.

De militantes sectários à colegas de profissão “a namoradinha do Brasil”, título que recebeu dos fãs devido sua meiguice nos inúmeros papeis que assumiu em seus trabalhos , em especial as telenovelas, foi alvo de uma enxurrada de acusações que por vezes beirou a falta de caráter e a histeria.

Considerada pessoa de moral ilibada não há sobre a atriz nenhuma acusação que a desabone. Reconhecida pelo seu talento e trabalho constante, não carrega em seu currículo o peso de atos corruptos ou ilegais.  Regina também é conhecida pela sua personalidade forte e tomadas de posição às claras.

Se observarmos sua trajetória como artista, por décadas levantou bandeiras políticas nem sempre de viés progressista, e durante os anos de chumbo da ditadura manifestou-se abertamente favorável a anistia dos perseguidos políticos e contra a censura, bem como também reivindicou nos palanques da oposição de então a volta das eleições direta para governadores.

Em 1968 foi aprovada no vestibular da USP para a Escola de Comunicações Culturais, mas não concluiu o curso. Entretanto sua atuação como atriz e produtora continuou trabalhando intensamente, sempre recebendo elogios e prêmios  da crítica especializada.

Chama a atenção a sua participação em espetáculos considerados subversivos pelo regime militar à exemplo da peça teatral “O Santo Inquérito” de Dias Gomes, que produziu e estrelou em 1978, que  denunciava metaforicamente a opressão presente nos porões da caserna.

Tais posicionamentos pontuais deixam claro o seu engajamento nas questões políticas nacionais, e, no caso acima, de forma até temerária ante a violência criminosa do governo dos generais.

Já entre 1979 e 1980, nos estertores da ditadura protagonizou o seriado Malu Mulher na Rede Globo, e virou símbolo da emancipação feminina, e, já no Brasil democrático, apoiou a candidatura de FHC, e durante seu governo se tornou conselheira do Comunidade Solidária, programa que almejava erradicar a pobreza.

Contudo, a passagem mais marcante da sua atuação política ocorreu em 2002, quando foi a televisão e no horário eleitoral afirmou o seu receio ante a ascensão ao poder do PT sob o comando de Lula. Declarou a alto e bom som “que o país corria o risco de perder toda a estabilidade conquistada").

O futuro mostrou que tinha razão, e desde então entrou em rota de colisão com uma significativa parcela de brasileiros, em especial os militantes mais inflamados, o que proporcionou o seu afastamento do cenário político. O "medo" de Regina foi "ressuscitado" na campanha eleitoral de 2014 e no impeachment de Dilma Rousseff, em 2016.

Regina Duarte mostra seu espírito inquieto, porém autêntico mesmo fora do período eleitoral, e causar polêmica parece ser uma de suas especialidades como atriz e cidadã.

Entre suas declarações mais contundentes citamos algumas: já afirmou que se algum dia fosse escalada para fazer o papel de Dilma Rousseff, não aceitaria; Quando Michel Temer assumiu a Presidência da República a atriz defendeu a extinção do Ministério da Cultura. E, mesmo casada com o fazendeiro e pecuarista Eduardo Lippincott, criticou a demarcação de terras indígenas.

Posteriormente foi criticada por apoiar ruralistas e deixou-se fotografar com o prefeito de São Paulo, João Doria, fantasiado de gari.

A vida imita a arte e a Ritinha Coragem, personagem que interpretou na novela “Irmãos Coragem” de Janete Clair em 1970-1971, personifica-se  agora na pele de uma senhora de 73 anos de idade.

Ao aceitar o cargo para o qual foi convidada a atriz mais uma vez mostra personalidade e independência, em um momento em que a intolerância e radicalismo político assume proporções assustadoras no Brasil.

 

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