Cajueiro dos Papagaios (por Antonio Samarone)

Redação, 21 de Setembro, 2020

O significado da palavra Aracaju é controverso. A língua tupi não possuía escrita. Os colonizares é que criaram a sua gramática. O sentido de cada vocábulo era interpretado pelo som, gerando entendimentos divergentes.

Os Tupinambás gostavam de nomear os acidentes geográficos homenageando os seus Caciques, como fazemos ainda hoje, com os nomes dos logradouros públicos. Até em edifícios e condomínios privados colocamos nomes de pessoas.

Se sabe que Pacatuba, Japaratuba e Muribeca foram Caciques famosos. Sergipe, vem do Rio Seregippe, uma clara homenagem ao Cacique Serigy.

E o nome Aracaju vem de onde?

Von Martius afirmou que Aracaju vem de ar – nascer, e caju – fruto do cajueiro.

Theodoro Sampaio foi mais longe, ara – papagaio, caju – fruta, Aracaju significando Cajueiro dos Papagaios.

Mário Cabral escreveu que Aracaju é uma corruptela ara-acayu, sendo ara – tempo e acayu – fruta. Também ficou bonito, Aracaju significando “O Tempo dos Cajus”.

Os poetas fizeram uso.

Caetano Veloso, numa canção antiga e pouco conhecida, versejou: “Céu todo Azul/ Chegar no Brasil por um atalho / Aracaju/ Terra cajueiro papagaio/ Araçazu... Aracaju/ Cajueiro arara cor de sangue/ Aracaju/ Menos o Sergipe e mais o mangue.”

Quando o poeta Pedro Luan escreveu recentemente: “Mar de renda, natureza, água morna, céu azul/ Deus te deu essa beleza de arar a terra e ser caju - Cajueiro dos Papagaios – Aracaju.”, ele usou arte e inspiração.

Não sei quem compôs, mas a bela canção “Meu Papagaio”, retomou ao tema dos papagaios.

O poeta Paulo Lobo recitou: “Ará Cajueiro Aracajuá/ Dança guerreiro/ Ruas de Ará.” Deve existir outros poemas que eu desconheço, inspiradas num deslumbrante Cajueiro dos Papagaios.

Imaginem: um cajueiro carregado, amarelinho de cajus, lotado de papagaios (ou de araras).

Infelizmente, quando os Tupinambás se referiram a Aracaju, eles não estavam pensando em um Cajueiro cheio de Papagaios. Mas que ficou bonito, ficou. Bem que poderiam...

O topônimo Aracaju é antigo, bem como a existência do Rio Aracaju, atual Rio do Sal, como anotou o Frei Jaboatão. Não estou falando do Riacho Aracaju citado pelo Engenheiro Pirro. Falo do Rio Aracaju, que denominou a Região.

As primeiras menções a Aracaju estão nas cartas de sesmaria, de 1600. Primeiro como Gauquajú, depois Arcaiú e, em 1602, com a forma definitiva de Aracaju. Na carta de Pero Gonçalves (1602) está registrado: “No cabo do Rio Aracaju está uma ponta de terra que mete entre dois apicuns.”

Aracaju era uma porção de terra de cerca de légua e meia quadrada, entre os Rios Aracaju ao Norte (atual Rio do Sal), Poxim ao Sul, Sergipe ao Leste, limitando-se ao oeste com o Riacho Caborje, já aterrado. Foi aqui que Cristóvão de Barros (1590), instalou a primeira São Cristóvão.

O Rio Aracaju é uma homenagem dos Tupinambá a um cacique, cuja tribo ocupava esse território. O surgimento posterior da Aldeia do Aracaju, que segundo Clodomir Silva, em 1696, era comandada pelo Cacique João Mulato.

A Aldeia do Aracaju situava-se no Morro de Santo Antonio, onde construíram uma igrejinha. Em 1757, o Padre José de Souza informou ao Governo, ter a Freguesia de Nossa Senhora do Socorro uma Capela no Povoado Santo Antonio do Aracaju.

De Aldeia passamos a Povoado de Santo Antonio do Rio Aracaju.

Observem, que se usa “do Aracaju”, e não “de Aracaju”, como se faz atualmente. Trata-se do Povoado do Rio Aracaju.

Fui advertido por um ex amigo, por usar “Febres do Aracaju”, “Pestes do Aracaju” como título dos meus livros. Espero, que entendendo as origens, o dito cujo sossegue. Eu continuarei falando “as coisas do Aracaju”.

Acompanho historicamente ao Padre Aurélio Vasconcelos de Almeida, Aracaju foi o primeiro nome do Rio do Sal, em homenagem ao Cacique Aracaju.

Depois Aracaju denominou a Região. A Aldeia do Rio Aracaju. O Povoado de Santo Antonio do Rio Aracaju se tornou a Cidade do Aracaju, em 1855, por força de Lei.

Entretanto, cultural e emocionalmente, fico com Theodoro Sampaio, somos um belo “Cajueiro dos Papagaios”, ou com Mário Cabral "O Tempo dos Cajus".

Falta as autoridades o senso poético, para infestar Aracaju de cajueiros, que os pássaros se aproximarão.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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