APARECIDA DAS ÁGUAS

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Peixoto, 07 de Outubro , 2020 - Atualizado em 09 de Outubro, 2020

APARECIDA DAS ÁGUAS

Aquela, que deu vida humana ao Filho de Deus, nunca esqueceu o seu principal papel, que é o de apontar Jesus às pessoas, dizendo-Lhe sempre de novo: “eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Em qualquer recanto do universo, onde faltar o vinho da dignidade e da justiça, da solidariedade e do respeito ao próximo, Maria estará sempre atenta à missão que recebera do Deus da Esperança e da Misericórdia.

As águas turvas do Paraíba do Sul, numa curva em que se tornam revoltas, ao invés de perigo aos pescadores, refrigério lhes ofertaram, ao lhes ensejar o encontro de uma imagenzinha enlameada. Uma imagem em saída, que sempre incomodou os que estavam satisfeitos com o sistema escravocrata, em que alguns têm direito a tudo e outros, sem direito a nada; uma imagem em pedaços, significando quão alquebrada estava a alma humana dos que escravizavam e dos que eram escravizados. Imagem saída da turbidez para iluminar as consciências, despertando-as para um novo modo de vida, sempre em sintonia com o Projeto de Deus.

Águas, Fonte de Vida, que gestaram uma nova aurora para o Brasil colonial. Águas batismais, que fizeram imergir a arrogância da divisão, para emergir a fraternidade solidária, geradora de unidade e de comunhão. Águas que turvaram a imagenzinha tiram a podridão da escravidão, da divisão, do ódio, da violência, para propor uma nova sociedade, fundada na justiça e na paz. Águas santas que alvejaram as vestes humanas, para torná-las semelhantes às do Cordeiro Imolado; que saciaram a sede de Deus, a sede de Amor.

Maria, a Aparecida das águas, que trouxe em seu ventre o Autor da Vida, o Redentor de todos os que mergulharam no anteprojeto do Reino de Amor, mais uma vez, faz-se protetora da vida. Ela, que assumiu a cor, a condição e a situação dos escravos, para lhes defender a vida e a dignidade, está entre nós, para nos encaminhar às águas profundas de nossa missão, no afã de apanhar peixes bons e sadios, sob a forma de homens e mulheres para o Reino de Deus. Maria é guia, no constante remar sobre as águas, para chegarmos à “outra margem”, purificados pelo Santo Amor que liberta e sustenta na missão.

Aparecida das águas se fez servidora da vida e, por isso, é considerada a Mãe e Rainha do Povo brasileiro, num constante gesto de sentinela da paz. É ela referência para a nossa vida, pois nos afeiçoamos ao poder, esquecendo de servir, de perdoar e de amar. Corremos pressurosos às fontes do prestígio e da glória, desejando o melhor para nós e o pior para o próximo, provocando exclusão e tormentos a muitos. Maria fez o contrário: escolheu o caminho humilde e do serviço, fez-se solidária e intercessora. O título de Rainha lhe é dado em posterior reconhecimento. Nunca foi o seu desejo, mas é uma forma humana de demonstrar gratidão a quem tanto fez e faz pelos filhos e filhas de Deus.

Com o coração prenhe da Palavra, que se fez carne em seu ventre, Maria se faz presença maternal, defendendo, amparando e assumindo as dores da gente espoliada pelo pecado e pela dor. Faz-se mãe terna e compadecida, indistintamente, estabelecendo vínculos com todas as raças, com todas as culturas, com todas as expressões de fé. Ela deseja um mundo sem divisões e sem mágoas.

Em nosso peregrinar histórico, ela nos fala novamente: “fazei tudo o que ele vos disser” (Jo2, 5). Esse é o segredo para passarmos da turbidez, que a lama da indiferença e da maldade provoca, à limpidez que o Amor-Serviço faz emergir. Que a Mãe Aparecida interceda pelo Brasil, e pelo mundo inteiro, neste instante difícil, desafiador e perverso. Que nosso futuro seja assegurado pela mão protetora de Jesus, que, com a Aparecida das águas, vem nos dizer: “coragem! Eu venci o mundo (Jo 16, 33)!

Que a Mãe Negra nos inspire na reconstrução de nossa história, após a turbidez desta pandemia. Que ela sempre nos encontre e nos permita encontra-la, a fim de que nossa caminhada seja sustentada por sua maternal intercessão. Mãe Aparecida, rogai por nós!

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