Aracaju

Uma cidade nua

Marcio Monteiro, 26 de Outubro , 2020 - Atualizado em 26 de Outubro, 2020

Aracaju continua crescendo ao deus dará, refém do poder econômico e o interesse político, que impedem a aprovação do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU) e os seus respectivos códigos, anunciados como promessas eleitorais de planos de governo dos candidatos, mas que permanecem dormindo em gavetas da Câmara e da Prefeitura.

Sinceramente já nem sabemos mais onde se encontra o projeto original do PDDU e dos códigos complementares, exaustivamente debatidos, finalizados e revisados por técnicos de entidades e representantes da sociedade civil organizada, desde de que Marcelo Déda encontrava-se à frente da Prefeitura, e Lúcia Falcón na Secretaria de Planejamento, gestão que acabou herdada pelo atual prefeito.

E lá se vão 14 anos de promessas, embora por dever de justiça, não possamos deixar de reconhecer o legado deixado pela conturbada e derradeira gestão de João Alves, por ter criado a Secretaria Municipal de Maio Ambiente (SEMA), que viria a finalizar o Plano Municipal de Arborização Urbana, e que serve de parâmetro para que sejam orientadas as políticas para tornar Aracaju uma cidade melhor ainda do que já é, muito mais verde e com maior diversidade de flora e fauna, fatores que aumentam a sensação de bem-estar do cidadão que partilha do espaço urbano.

Embora a capital tenha se tornado ao longo do tempo uma cidade cada vez menos industrial e de ter um clima mais ameno do que outras capitais do Nordeste, vem sendo afetada pelo crescimento habitacional sem que o poder público manifeste preocupação em preservar ou criar áreas verdes que impeçam que Aracaju seja no futuro próximo, uma cidade sem qualquer valor ambiental em termos de biodiversidade, com poucos espaços públicos compartilhados apenas pelo cidadão aracajuano, seus pets e pombos.

As árvores têm um papel essencial no controle da temperatura ambiente, funcionando como um filtro solar natural. Contribuem também para redução da poluição e do excesso de ruídos ambiente, além de controlar a umidade do ar. Paisagens com árvores criam uma sensação visual agradável, além de servirem de sombra para amenizar os dias quentes, favorecendo o desenvolvimento de arbustos e gramíneas, e servir de abrigo natural para a fauna silvestre.

De acordo com dados do IBGE Cidades (2010) sobre arborização das cidades brasileiras, Aracaju só se posicionava à frente dos municípios que formam a microrregião da Grande Aracaju. No Estado ocupava a 27ª posição no ranking, atrás de outros 3.859 municípios brasileiros.

Desde 2010, pouco se tem feito para tornar Aracaju uma cidade mais verde, e mesmo sendo um assunto fora do contexto de prioridades nos governos do século passado, há que se ressaltar o esforço do ex-prefeito Almeida Lima, ao promover o plantio de árvores nativas em canteiros de praças e vias da capital. Fato que sem dúvida marcou a sua curta administração.

Não há que se pensar em qualidade de vida sem que exista uma relação equilibrada do cidadão com o meio ambiente que o cerca, fator que compromete o que convencionou se chamar de “qualidade de vida”, embora o conceito da expressão seja muito mais amplo, e envolva outras variáveis ambientais.

De acordo com o Ranking Connected Smart Cities (2020), elaborado anualmente pela consultoria Urbam Systems, apenas Salvador, Teresina e Fortaleza (nessa ordem), estão entre as cem cidades ranqueadas no quesito Urbanismo, e nenhuma capital do Nordeste aparece entre as cem melhores cidades do quesito Meio Ambiente. Mas existem exceções e bons exemplos, e Salvador é um bom referencial, dado que ao longo de sucessivas administrações sempre priorizaram a preservação de áreas remanescentes da Mata Atlântica, dunas, lagoas e restingas, mesmo sofrendo forte pressão da especulação imobiliária.

A Prefeitura de Aracaju mantém um viveiro de mudas na Sementeira, mas que sempre me pareceu estar em local inapropriado, assim como as instalações administrativas da EMSURB e do comando da Guarda Municipal, que ocupam espaço que deveria ser exclusivamente para uso como local de lazer da comunidade, onde só deveriam circular pessoas.

Curiosamente, o Parque Augusto Franco, embora produza mudas para o município, sempre foi um local pelado, em termos de arborização, cujas plantas parecem não receber os tratos culturais adequados, sem irrigação e mal cuidado, onde as árvores parecem não ter o mesmo viço de parques urbanos de outras capitais.

A Coroa do Meio é outra área literalmente pelada, onde só existe vegetação nos canteiros de algumas avenidas. A orla onde ficam os moles de pedra deveriam estar repletas de coqueiros, assim como nas praias da Zona Sul, onde vislumbramos enormes espaços vazios ao longo da rodovia Inácio Barbosa, que deveriam estar margeada com muitos coqueiros plantados.

Lembrei-me do que disse um investidor e proprietário de resorts na América Central, durante palestra na CODISE, quando destacou que muito do sucesso de seus empreendimentos no Caribe deviam-se ao fato de ter aumentado a quantidade de coqueiros no entorno dos seus resorts, após identificar em pesquisa este fator como determinante para a atração de turistas americanos e europeus à região. É a partir de declarações como essa que cai a ficha de que apesar da tradição na produção de coco, temos quilômetros de praia sem um só coqueiro. 

Certamente a mais exitosa intervenção urbana realizada na capital, considerando o sentido de como devemos cuidar de questões socioambientais, deve ser creditada ao saudoso governador Marcelo Déda. À frente do executivo municipal teve a preocupação de aliar intervenção urbanística, preservação ecológica e inclusão social, no projeto de construção de residências na Coroa do Meio para abrigar 110 famílias, removidas das vergonhosas palafitas que avançavam sobre a área de mangue da maré do Apicum.

A construção da avenida margeando o rio, proporcionou a proteção adequada à recuperação natural daquele ambiente, fazendo com que o verde avançasse sobre a lama, emoldurando o mangue exuberante que se expandiu para a região do Calçadão da Treze, alimentados pelos ricos nutrientes lançados durante anos por condomínios verticais que foram se instalando na região, provocando uma espécie de assoreamento positivo nas calhas dos canais que meandram o apicum da Coroa do Meio.

Se existe algum verde em Aracaju, o fato deve ser creditado apenas e tão somente à própria natureza e à sua capacidade regeneração. Enquanto isso, nossos ilustres gestores permanecem tratando a questão da arborização da cidade e da preservação ambiental como questão acessória e sem relevância. Talvez seja porque, assim como o saneamento, a arborização não produza efeitos imediatos, e represente fator decisivo em eleições municipais.

Em 2017, presenciei ao ato solene promovido pela EMSURB, no Parque da Sementeira, do projeto de plantio de 40 mil árvores em Aracaju até 2020. Logo em seguida vimos as primeiras mudas de árvores com mais de dois metros de altura serem plantadas em trecho da Avenida Saneamento. Com o passar do tempo, o projeto foi perdendo força, e com as intervenções radicais promovidas pela administração municipal na Avenida Hermes Fontes e suas extensões, já não observamos o mesmo zelo na reposição prometida das árvores removidas, e entre a Avenida Barão de Maruim e Rua Dep. Euclides Paes Mendonça, não foram deixados espaços para nada além das bases dos futuros pontos de ônibus.

A atual administração tem realizado obras que merecem o reconhecimento da sociedade, a exemplo da urbanização da Avenida Euclides Figueiredo e da Orlinha Pôr do Sol, porém não acredito o município compense a derrubada dos pés de "matafome" que existiam na Hermes Fontes com algum tipo reparação ambiental no mesmo local. Por essa razão, conclamo que cidadãos e empresas que sofreram com as obras impostas pela Prefeitura no referido logradouro, que tomem a iniciativa de plantar as suas próprias árvores nas calçadas, pois onde haviam canteiros não há espaço para plantas, apenas cimento, asfalto e nada mais.

Salvador, como frisei, é um bom referencial para Aracaju em termos de proteção ao meio ambiente e arborização urbana, pois possui um vasto histórico em ações de sustentabilidade. Estabelecido em 2016, o Sistema de Áreas de Valor Ambiental e Cultural (SAVAM) tornou-se parte integrante do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Salvador, com a finalidade de ampliar as áreas protegidas no município.

Os aracajuanos precisam cobrar dos vereadores de Aracaju que abandonem a prática preguiçosa e subserviente de só aprovarem projetos produzidos pelo Executivo, e passem a atuar verdadeiramente como representantes do povo e não como meros chanceladores de projetos prontos, exigindo do executivo municipal compromisso com a arborização da capital mantendo uma política firme de preservação e manutenção dos ativos ambientais, além de criação de novas áreas verdes em locais que sofreram degradação.

O momento é oportuno para que sejam estabelecidas e aprovadas metas de arborização para Aracaju, celebrando contratos de parcerias com empresas, ONGs e entidades, visando dar maior celeridade ao processo de plantio de árvores em todo o município, promovendo campanhas educativas com envolvimento do cidadão nesse processo de desenvolvimento e de melhoria da qualidade ambiental do município.

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