NEM NOVO ANO, NEM ANO NOVO, O VELHO CONTINUA por Manoel Moacir Costa Macêdo

Redação, 08 de Janeiro , 2021

Estamos iniciando um ano novo ou um velho continuado. Não significa uma troca de palavras, mas sentidos de um ano seguido de outro. O primeiro dia do ano, carrega convencionais celebrações. Feriado universal. Marco entre anos que encerra e inicia. Obviedade repetida no calendário da humanidade. Correia de transmissão do tempo. Energias renovadas. Regeneração à vista. Festas, fogos, beberagens e muito mais.

Uma data com expectativas do ano que chegou. Adeus ao ano que passou no último segundo do mês de dezembro. Continuidade do ano encerrado. Na rotina da vida, as conexões continuam entre o passado e o presente. O tempo vivido e o que estar porvir. O futuro é promessa e esperança. O que passou é ano velho? O que chegou é ano novo ou novo ano? Uma separação marcada por minúsculas medidas no calendário de tempo. Um chamado a dialética onde “tudo interfere em tudo”. Matéria-prima para o presente, para a futurologia e até para a pós-materialidade.

O ano que se foi, o ano velho, não foi o esperado, como o louvado ano novo ou novo ano. Na verdade foi um ano passado na inexorabilidade do tempo. Não trouxe a esperança de felicidade para uma humanidade partida, ao invés de irmanada. Na agenda, não constava a pandemia, os horrores do ódio, a polarização insana, o desemprego, a miséria e as tragédias ambientais. A desigualdade agravou e a globalização ruiu no bem-viver. A esperança mais uma vez é uma espera. Um futuro ufanista que nunca chega. Para as criaturas, não importa que seja novo ano, ano novo, ou ano velho, mas que seja um ano bom e igualitário.  

Na geografia desigual do velho e novo ano, os festejos, desejos, preces, “despachos e mandingas” não transformam os valores basilares da sociedade. A dignidade do viver não está por igual entre os humanos, continua a esperança dos esquecidos. Os ganhos prometidos não são harmônicos, igualitários e nem consensuais. O comum é a dócil espera dos vulneráveis e invisíveis. Privilégios e assimetrias transportadas do velho para o novo ano, como um único ano. Exceções à misericórdia dos deuses. Exemplos raros de padrões superlativos de evolução humana, mas incapazes de promover a ruptura entre os que muito tem e os que nada possuem. Persistência dos fortes perante os fracos, numa peleja desigual onde humanos são transfigurados em canibais.

Na contradição dos fogos e clarões do esperado novo ano, desprezo à força mitigadora do ano velho. O inexorável enlace entre os anos abastece no mundo real os confortos individuais controlados pelo dogma do castigo. Às favas o coletivo e a esperança libertadora. Ao tempo o acerto de contas. Nem a pandemia do velho ano igualou as privações e dores no ano novo. Ela seguiu a rota da desigualdade. O oxigênio gratuito para todos, faltou em maior volume para os pobres, negros e favelados. A saúde pública não cuidou por igual de todos. Continuam as esperanças dos fragilizados no ano novo, no novo ano, ou no além.

Interesses manipulam a compaixão e a piedade, não importam os anos. Na realidade, um único envelhecido e experimentado ano. Crédulos apelam aos mereceres dos deuses como se fossem os seus próprios enviados. Incrédulos reduzem as mazelas ao acaso da natureza, sem temor do apocalipse. Aproveitadores de ocasião, louvam o ano novo e o novo ano, como se o velho não existisse. Crentes e carentes suplicam a esperança que não chega. Na rotina da vida, não existe um novo ano ou um ano novo, mas um ano velho estendido.

Esperanças não reformam o ser na essência biológica, psíquica e espiritual. Voláteis promessas, voam aos ventos dos anos como se iguais fossem. Brindes e cestas básicas, não quebram paradigmas e nem derrubam as duras estruturas sociais mantidas entre os anos que partem e chegam, sejam velhos ou novos. Aliviam a consciência individual como bálsamos analgésicos. A caridade moral na sua efetividade e desinteresse é bem-vinda. Não importa que seja um ano novo, um novo ano ou um ano velho, o importante é que seja um ano bom e igualitário.

 

Manoel Moacir Costa Macêdo, é engenheiro agrônomo e advogado

 

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