VACINA CONGELADA ( por Manoel Moacir Costa Macêdo )

Quem são os consumidores da vacina armazenada numa temperatura de 75º centígrados abaixo de zero?

Redação, 15 de Janeiro , 2021 - Atualizado em 15 de Janeiro, 2021


Pandemias causam mortes, dores, privações e sequelas à humanidade. Elas chegam sem avisar e seguem a rota da desigualdade social. Pobres, negros, índios, quilombolas, favelados e carentes dos socorros da saúde são as vítimas preferidas. Não foi diferente com a Covid-19. O mundo parou e curvou-se perante o desconhecido coronavírus. Ele retirou o ar dos pulmões e asfixiou até a morte quase dois milhões de humanos. Não importa donde veio e nem as razões. Vidas que se foram, importam sim.

A pandemia chamou as atenções dos governos. Ao Estado cabe o dever moral de cuidar das pessoas. A moléstia num único tempo, traz sofrimentos, mortes e estragos a economia e ao emprego. Os danos são conectados. Os diligentes governos agregam os feitos da ciência aos cuidados aos humanos de forma integrada. Repúdio aos negacionistas, marcados pelo sinal da cruz. Adiante a história haverá de julgá-los. Não tem escapes. O júri cedo ou tarde acontecerá. Os nazistas do holocausto, continuam caçados como criminosos da humanidade.

A pandemia desafiou a ciência, que respondeu com rapidez. Profilaxias foram recomendadas. Terapias não tardaram a chegar. Vacinas foram desenvolvidas no tempo de menos de um ano, como nunca acontecido. Conquistas científicas sem precedentes. A ciência não acolhe a neutralidade. Ela respondeu aos sinais do mercado. Recursos abundantes, inovações tecnológicas e consumidor, são fartos ingredientes à “produção e consumo”. Não quer dizer, a “circulação e distribuição” por igual na “modernidade líquida”, onde campeiam os desiguais e invisíveis dos ganhos civilizatórios.

Ao menos três vacinas estão em oferta no mercado global. Primeira, a “vacina da Pfizer e da Biontech”. Empresas farmacêuticas globalizadas, com matrizes nos Estados Unidos e Alemanha. A mais inventiva de todas. O RNA mensageiro sintético, auxilia o organismo do paciente a gerar anticorpos contra o vírus. Quebra de paradigmas e revolução científica. Exige ser armazenada numa temperatura negativa de 75º centrígrados. Segunda, a “vacina da AstraZeneca e da Universidade de Oxford”. Usa o vetor viral não replicante, o adenovírus. Vírus geneticamente modificado e incapaz de se replicar no corpo humano. A AstraZeneca é uma fusão da empresa sueca Astra AB, com o Zeneca Group PLC do Reino Unido. Terceira, a “vacina da Sinovac”, fabricada pela biofarmacêutica Sinovac Biotech Ltda. sediada em Beijing no velho império chinês, renovado num modo capitalista de produção ao seu estilo. Usa uma tecnologia tradicional de imunização, desenvolvida há cerca de setenta anos. Vírus inativados, expostos em laboratório ao calor e produtos químicos que impedem a sua reprodução no organismo. Todas com o aval da ciência e protegidas pela lei de propriedade intelectual.

Mercadorias à venda como outra qualquer. Ofertadas no mercado a quem der mais. Imunizam a vida dos protegidos e abandonam à morte os esquecidos. Na arena desigual, a maioria da humanidade possui níveis sofríveis de desenvolvimento humano. Estão distanciadas das vacinas. Uma simples pergunta aguça a imaginação: quem são os consumidores da vacina armazenada em temperaturas de 75º Centígrados abaixo de zero? Imediata e óbvia resposta: não são os viventes dos trópicos tristes, quentes e pobres da África e América Latina.  Não estão destacadas, as vacinas desenvolvidas pela Rússia, país com tradição secular de imunização. A Imperatriz russa Catarina, a Grande, foi vacinada no século XVI. O Centro de Pesquisa em Epidemiologia e Microbiologia Gamaleya do século XVII lidera as pesquisas com vacinas do adenovírus. As vacinas criadas na Índia e Cuba priorizam os seus nativos e a solidariedade entre os povos. Na lógica do lucro, compaixão e piedade não derrubam os muros assimétricos e indiferentes à saúde por igual, numa única humanidade.

No dizer do professor emérito da Universidade Federal de São Paulo - USP, José de Souza Martins, “a pandemia revelou que no Brasil não se trata apenas de uma doença de origem biológica e viral, mas de outra doença por ela revelada, a de uma doença social e política”. Enquanto a maioria dos países carecem de vacinas, seringas e agulhas, uns poucos situados acima da linha do equador imunizam por inteiro as suas populações em tempo de celebrar a vindoura páscoa, numa simbologia de vida para os cristãos.

Manoel Moacir Costa Macêdo, é engenheiro agrônomo e advogado

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