ECOS DA NATUREZA por Manoel Moacir Costa Macêdo

Redação, 20 de Agosto , 2021 - Atualizado em 20 de Agosto, 2021

Foto: Foto: Alan Tiago Alves/G1


Não são recentes as reações da natureza às agressões humanas. Conferências, summits, workshops, acordos, discursos, códigos, pesquisa, protestos e promessas mundo afora, não frearam a fúria humana na exploração predatória da “mãe Terra”. Acumulação, ganância e desigualdade ameaçam a biodiversidade das florestas, a beleza das paisagens, o cantar dos pássaros e a saúde dos oceanos, rios, riachos e lagoas. A casa planetária padece de cuidados, atenção e zelo.  

A humanidade não ouve os ecos de agonia da natureza ferida e maltratada. A mensagem tem sido repetitiva: enchentes, secas, aquecimento global, crise energética, ressacas das marés, emissões de gases tóxicos, deficiência hídrica, elevação do nível do mar, desertificação e fome. O modo de produzir e consumir dos humanos estimula a catástrofe ambiental anunciada. Evidências mensuram a inferioridade da espécie humana em escutar os gemidos da natureza. As gerações millennials (25 a 40 anos) e Z (9 a 24 anos) segmentadas na “classe média branca”, estão atentas a alimentação saudável e as inovações tecnológicas, mas surdas e entorpecidas aos prazeres sensoriais consumistas em contingências de desigualdade social.  

A natureza continua pacientemente rogando piedade e misericórdia. Não quer dizer um consentimento às brutalidades humanas, mas avisos, alertas e advertências. De repente e sem avisar, o planeta emitiu o grito de desespero à consciência coletiva: a pandemia da Covid-19 causada pelo coronavírus. Um “microscópico filete de gordura deixou a humanidade de joelhos”. Uma molécula sem vida e sem alma parou a Terra. Cantou o poeta, que sabe, sente e não mente: “parou porque”?

Parou pela arrogância, egoísmo e orgulho do Homo sapiens, a única espécie humana sobrevivente. A irresponsabilidade no trato com a natureza ultrapassou os limites da convivência fidalga com um planeta vivo e acolhedor. Insanidade injustificável nas luzes iluministas. A destruição de habitats naturais de espécies silvestres, são premissas causais do coronavírus e potenciais razões para outras pandemias na “era da gama dos vírus”.

A produção agropecuária brasileira lastreada em commodities das cadeias globais, é parte dessa tragédia. Há meio século os insumos da “modernização dolorosa da agricultura”, isto é, os agrotóxicos, fertilizantes sintéticos, emissão de gases de efeito estufa, abertura de fronteiras agrícolas e cultivos seletivos de lavouras e criações, penetraram na história, na sociologia, na economia e na localidade harmoniosa onde vivem e trabalham os homens e mulheres rurais. Em consequência, rupturas de ecossistemas equilibrados. Estima-se que um milhão de espécies estarão extintas da natureza nos próximos três anos. Uma opção reducionista e lucrativa no produto, na produtividade e no desprezo ao humanismo e a sustentabilidade. A história registra que “o Homo sapiens levou as espécies de plantas e animais importantes à extinção, [como] a espécie mais mortífera nos anais da biologia”.

O recente relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas - IPPC da Organização das Nações Unidas - ONU mostrou que “as mudanças climáticas causadas pelos seres humanos são irrefutáveis e irreversíveis e quantifica a responsabilidade das ações humanas” na eminente ameaça à sobrevivência terrena. As externalidades do modo de produção agropecuário, ultrapassaram o desemprego no campo, a contaminação ambiental, a migração urbana desordenada, a intoxicação humana e animal, a dependência tecnológica e a insegurança alimentar e nutricional humana e animal, para alcançar o doloroso drama universal das pandemias.

Uma sociedade globalizada, protecionista e tecnificada, mostrou-se incapaz de solucionar os males globais. Uma nova ordem regenerativa, inclusiva e sustentável, haverá de substituir a atual ordem mecânica, reducionista e exploratória.

Manoel Moacir Costa Macêdo é engenheiro agrônomo e advogado.

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