O Canto do Professor Gabriel. (por Antonio Samarone)

Redação, 21 de Agosto , 2021

Nas escolas da minha infância, a pedagogia educava dentro da dualidade poesia/medo. Deixe-me esclarecer.

O ensino da tabuada fazia-se cantando coletivamente com a turma. Contraditoriamente, a averiguação era cruel, em forma de sabatina, onde o erro era punido com a palmatória. O canto versus o medo, a música versus a violência.

O espancamento dos alunos não era permitido nas escolas públicas, nos Grupos Escolares. Já nas escolas particulares, era a regra.

Algumas professoras se notabilizaram pela violência. “A professora fulana bate sem dó nem piedade”, dizia-se em Itabaiana. Sem contar os castigos cruéis e humilhantes.

As reguadas nos braços era um aperitivo para os desatentos.

A violência física não me afetou na escola, frequentei escolas públicas. Nunca dei a mão à palmatória!

O canto sim, afeta até hoje. Ainda faço a chamada “conta de cabeça”, claro, das 4 operações. Não dou a ousadia de usar a máquina. Engraçado, o meu cérebro soma, multiplica e divide cantando, dentro de um ritmo musical.

As primeiras letras e números chegavam às crianças sob o signo do medo e do canto. A palmatória era um frequente recurso pedagógico dos educadores. Os professores batiam muito, eram espancamentos educativos, diziam eles.

No Ginásio Murilo Braga, o professor Gabriel (que não batia) ensinava matemática com a pedagogia do canto. “Primeiro pelo primeiro, primeiro pelo segundo, segundo pelo primeiro e segundo pelo segundo”, cantávamos festivamente.

A poesia didática é um recurso formidável na arte de ensinar. Onde teve início esse costume de aulas cantadas?

Avicena (Ibn Sînâ), médico persa do século IX, conhecido pela publicação do “Cânone da Medicina”, uma enciclopédia em 5 volumes, que concentrava o conhecimento médico da época.

Entretanto, a mais grandiosa obra de Avicena é o seu “Poema da Medicina” (Canticum), que contém os princípios da ciência médica em forma de versos, cantados nas faculdades de medicina europeias, até o século XIX.

O trecho do Poema dedicado à fisiologia, termina com uma análise dos sentimentos:

“A cólera traz o calor e às vezes pode ser um mal; o medo gera o frio e por vezes pode provocar a morte; o corpo prospera com a alegria, porém, em demasia, ela lhe produz uma má disposição; a tristeza pode ser fatal aos magros, entretanto é útil àqueles que necessitam perder peso.”

O canto do professor Gabriel tinha raízes profundas.

Gabriel não era um sábio da matemática, talvez até soubesse pouco, mas era um exímio professor, pois dominava a didática do canto. Quase tudo que sei da matemática aprendi nas aulas de Gabriel. O mais espetacular, nunca reprovou ninguém.

Os modernos cursos de preparação para o vestibular usam a pedagogia de Gabriel. O recurso ao verso e ao canto, para todas as disciplinas. Claro, sem palmatória.

A história da educação em Sergipe, tem uma dívida com o professor Gabriel.

Na foto, o professor Gabriel é o cadeirante...

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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