TRADIÇÕES AFRODESCENDENTES:: AS TAIEIRAS DE LARANJEIRAS

Carlos Braz, 05 de Novembro , 2021 - Atualizado em 05 de Novembro, 2021

 

Foto: Governo de Sergipe 

Tradições afrodescendentes: a taieira de Laranjeiras

 Por Carlos Braz 

A taieira é uma manifestação cultural brasileira secular, havendo relatos de sua existência no longínquo ano de 1769 na cidade baiana de Santo Amaro, quando, por ocasião das núpcias do infante D. Pedro, um grupamento participou do desfile comemorativo da efeméride. Também em Alagoas encontram-se documentos atestando sua presença nos séculos XIX e XX. Já Em Sergipe o séquito da coroação de reis do Congo é conhecido há várias gerações, sendo que, na contemporaneidade, apenas a cidade de Laranjeiras conserva o folguedo, que acontece com regularidade.

O desfile das taieiras na cidade-mãe da nossa cultura é um acontecimento dos mais significativos, plenamente legitimado pela população. Definida como uma dança-cortejo de cunho religioso, vai às ruas tradicionalmente no dia 6 de Janeiro durante a festa de são Benedito, acompanhando as rainhas de Nossa Senhora do Rosário. De acordo com a pesquisadora Beatriz Góis Dantas em nenhum outro estado do Brasil a manifestação integrou-se aos costumes populares, sendo que em muitas regiões a tradição já é considerada extinta ou está descaracterizada.

A grande liderança ancestral das taieras, responsável direta pela sua sobrevivência, foi a Yalorixá Umbelina de Araújo, mais conhecida como Bilina, que para isso usou todo o seu prestígio e sabedoria, assumindo responsabilidades diante das dificuldades cada vez maiores que ameaçavam a continuidade da tradição. Essas reformas garantiram a longevidade da “brincadeira”, termo pelo qual sua guia espiritual costumeiramente usava quando se referia à folia.

Apenas em Laranjeiras ocorre a ligação intrínseca entre a taieira e o candomblé de origem nagô fato que, efetivamente, foi essencial para a resistência do grupo, já que dissociada da religiosidade não sobreviveria diante dos novos tempos, onde a indústria cultural, através da massificação, impõe o que deve ser consumido culturalmente.

Com a morte de Bilina temia-se pelo futuro das taieiras. Porém, com o envolvimento de agentes culturais locais e com a Lei dos mestres, ação institucional que promoveu a transferência de conhecimentos folclóricos pelos líderes dos diversos grupos existentes na cidade, as taieiras continuam em plena atividade, agora sob a liderança da “loxa” Bárbara, que mantém viva com muita galhardia esta tão grata tradição.

A realização anual do Encontro Cultural de Laranjeiras foi preponderante para a manutenção desta e outras manifestações populares locais, atraindo estudiosos da cultura popular de vários estados do Brasil.

Com a criação do Largo da gente Sergipana, em frente ao museu do mesmo nome, a imagem das Taieiras chama a atenção dos que ali transitam contribuindo para o seu conhecimento tanto dos sergipanos quanto dos que nos visitam,  desse nosso folguedo de grande valor  simbólico.

 

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