Carta Aberta a Sua Majestade. (por Antonio Samarone)

Redação, 11 de Novembro , 2021 - Atualizado em 11 de Novembro, 2021

Sei que no mundo pagão (Grécia e Roma) você era uma deusa prestigiada. Paciência, os tempos mudam. Inventaram o humanismo e o homem passou a se achar uma divindade. Para complicar, ainda inventaram o monoteísmo.

Os homens, por despeito, resolveram ignorá-la. No dia a dia, não se fala mais em vossa majestade.

Você reagiu!

Por vingança e ressentimento, resolveu amolar a foice e ceifar velozmente, sem descanso. Inventou até uma Pandemia, virou notícia, mostrou a sua sombra.

A minha geração está indo embora. Diariamente recebo a notícia: sabe quem morreu? Quando penso em amigo que não vejo há muito tempo, a primeira pergunta é: “fulano ainda é vivo?”.

Sei que você é implacável e não aceita negociações, lhe botaram essa fama de radical. Eu acho um exagero, você não é tão cruel.
De todo jeito, tenho uma proposta: me poupe por algum tempo. E nesse tempo, não me tire a memória. Misericórdia!

Estou lhe pedindo um tempo. Só isso, poderosa morte. Não é muito!

Sei que você vai perguntar o que fiz com o tempo que já tive e gastei sem economia?

Vou confessar: esperdicei. Joguei fora a maior parte. Gastei-o, como se ele fosse infinito. Só o que perdi em reuniões políticas, dava uma vida.

O tempo que perdi com bobagens, preocupações vãs, planos sem viabilidade, projetos megalomaníacos, ilusões, sonhos e ambições, dava outra vida.

Eu reconheço.

Estou mais experiente. Dessa vez vou saber aproveitar o tempo. Já fiz uma agenda final, enxuta, só com prioridades. Vou lhe mandar uma cópia.

Para os maledicentes, um esclarecimento: não é uma proposta faustiana. Não estou vendendo a alma ao Capeta. Estou pedindo clemencia a uma antiga deusa. Nada ofereço em troca, só juízo e disciplina. Não esperdiçarei o tempo extra que estou pedindo.

Não quero poder, fama, riqueza, honra nem glória. Só estou lhe pedindo tempo e memória.

A morte me respondeu por e-mail: “aceito a proposta com uma condição: se você começar a gastar o tempo extra concedido de forma esbanjadora, eu rompo o contrato e lhe executo no mesmo dia. Aceita?”

Eita porra, e agora?

Aceito ou fico nesse lenga-lenga da incerteza, sem saber quanto tempo resta, mas podendo gastá-lo sem compromisso, com o uso “politicamente correto” do mesmo?

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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