Notícias, para quem precisa de notícias... (por Antonio Samarone)

Redação, 13 de Novembro , 2021 - Atualizado em 13 de Novembro, 2021

 

Eu enfrentava a minha insônia congênita, lendo. Com muita leitura. A insônia é uma herança paterna. Está no DNA!

Com a idade e a quarentena, a catarata tomou conta das vistas. Já falei com o meu professor de oftalmologia, na faculdade de medicina, para providenciar a troca do cristalino. Colocar uma lente.

Soube que essa cirurgia já é feita no Shopping Center.

O meu desatualizado cristalino, analógico, pode ser substituído por lentes digitais, que fotografam com alta resolutividade e enviam as imagens por download para o celular. É o Google Glass! As coisas assumirão o comando definitivo.

Posso entrar na Era do “Homo digitalis”.

Enquanto aguardo a autorização da preguiça para a cirurgia de catarata, passei a ocupar as horas insones, com o jornalismo.

Notícias, muitas notícias. Fiquei obcecado, sem tempo para processar as informações e elaborar um pensamento. O pensamento foi morrendo!

Por mais espantoso que seja o fato, a mídia o naturaliza e apresenta uma versão visivelmente distorcida.

Em pouco tempo, outras notícias passam a dominar o noticiário e a anterior é esquecida. O fato até existiu, não é um fake (onde o fato não existe). Só que o fato é apresentado atendendo a interesses.

Caetano Veloso, muito antes da mídia digital, registrou em versos: “O Sol nas bancas de revista/ Me enche de alegria e preguiça/ Quem lê tanta notícia?”

A mídia digital transformou o tempo, numa sucessão de presentes disponíveis (Chul-Han). As notícias precisam distrair os espectadores, assumindo a forma de espetáculo.

O bombardeio de notícias está matando a minha capacidade analítica, tudo parece a mesma coisa. Não sei mais separar o essencial do não essencial. Sem análise não existe pensamento. A minha capacidade cognitiva está se dissolvendo.

A avalanche de informações não produz uma narrativa, nem uma verdade. As notícias de nada servem, não iluminam a escuridão.
As notícias são desinformações. Tudo isso eu já sabia.

Só que essa semana o quadro se agravou.

Assisto aos noticiários sem entender nada, ou quase nada. Acho que eles estão sempre repetindo a mesma coisa. Entro em pânico com a chatice das notícias, fico ansioso, impaciente e disperso.

A Insônia assumiu a soberania da noite.

Procurei um psiquiatra, renomado em Aracaju, para uma consulta informal, pela “telemedicina”. Ele bateu de pronto: “você está com a SFI (Síndrome da Fadiga de Informação). Essa comunicação digital é patogênica, principalmente as notícias.”

Ainda me recomendou para a SFI um novo medicamento, inibidor do ácido gama-aminobutírico (GABA), principal neurotransmissor no encéfalo. Eu que vá seguir as doidices da psiquiatria orgânica.

Os sustos com as mudanças dos meios de comunicação são antigos e sempre trouxeram problemas. Kafka achava as “cartas” uma forma desumana de comunicação. Ele nunca aceitou: “Beijos escritos não chegam a sua destinação.”

Encontrei uma saída não medicamentosa. Enquanto a cirurgia de catarata não ocorre, bloquei os noticiários e voltei para a Caverna de Platão, só que de porta fechadas.

Antonio Samarone (médico sanitarista)

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