MEMORIAL DO GRANDE ENCONTRO por Manoel Moacir C. Macêdo, Gutemberg A. Diniz Guerra & Renato Brasileiro Júnior

Redação, 26 de Novembro , 2021


Os anos universitários sintetizam no curto lapso temporal os valores sublimes da existência. Oportunidade única de mitigar a educação formal, a identidade profissional, a rebeldia juvenil, a sobrevivência e os sonhos de transformações sociais e políticas. A depender das circunstâncias o acolhimento de rupturas e radicalidades. Um tempo que não deve ser esquecido e apenas apensado nos anais da história, mas festejado e louvado na atualidade.

Assim foram os anos do curso de agronomia na década de setenta na Escola de Agronomia da Universidade Federal da Bahia - EAUFBA. Uma quadra única na humanidade, a exemplo dos arroubos da utópica “comuna francesa”, das ditaduras militares na América Latina, da libertação das colônias africanas do julgo português, enfim de uma década que “desmoronou o mundo”. No solo pátrio, não foi diferente de alhures: jovens resistiram às restrições de liberdade com a própria vida, numa experiência épica de guerrilhas, protestos e contestações urbanas e rurais. Alguns desses bravos jovens foram forjados nesse ambiente universitário. O crescimento econômico concentrador do “milagre brasileiro” atraiu a atenção internacional, mas, adiante fortaleceu a persistente desigualdade social.

Não foi por acaso, que nesse tempo, talentos foram aflorados na música, como o “tropicalismo e a bossa nova”; o “cinema novo” e a arte revolucionária de Oiticica, entre outras expressões iluministas e geniais. As ciências da humanidade correram para entender a liberação da feminilidade, os sentimentos libertários da sexualidade, os limites de “liberdade ou morte” e o alvorecer de um mundo envergonhado de uma guerra entre “gigante e plebeu”, no apogeu da Guerra Fria e ameaças nucleares.  Ingredientes de um “mundo de paz e amor”, experimentado ao menos pelos hippies na comunidade de Arembepe na Bahia.

Nesse caldeirão de efervescência humana, jovens universitários carregaram na memória e assentaram com emoção e afeto, após mais de quatro décadas as vivências num campusuniversitário no interior baiano, registrados no “Memorial” escritos com humor, afeto e verdades.  Revelações que ultrapassam as competências do saber formal da ciência agrícola, para alcançar as experiências do ser, algumas delas saíram da “aldeia para se tornarem universais”. Nessa época, inexistiam as inovações disruptivas, a exemplo da clonagem, da transgenia, da internet das coisas e dos algoritmos, entre outras tecnologias da chamada “modernidade líquida”. O conservadorismo e o reacionarismo pelejavam naquele ambiente como freios aos avanços, numa “mudança de época”.

Os registros estão contados no “Memorial” de Engenheiros Agrônomos da Centenária Escola de Agronomia”, criada em 1º de novembro de 1859 pelo Imperador D. Pedro II no tempo de crise da economia açucareira, a marca da escravidão brasileira, dos engenhos e coronéis do açúcar do Nordeste. Golpes e rupturas condicionaram o padrão da sociedade brasileira. Os anos posteriores ao golpe militar de 1964, na década de setenta, foram de restrição de liberdade, em especial no ambiente estudantil - os chamados “plúmbeos tempos”. Nele estávamos inseridos como estudantes universitários, alguns distinguidos pelas cotas da “Lei do Boi”. A reforma universitária impediu a camaradagem universitária do início ao fim do curso. Fomos apartados por semestres, ciclos, calendários e campus no interior e na Capital.

Artifícios que não impediram os encontros, pois a vida em sua essência é suprema aos melindres da inferioridade humana. Cumprida com suor a linear grade curricular, distanciada dos problemas sociais que maltratavam as criaturas. Não fomos expostos à problemática ambiental. Também não debatemos as contradições do capitalismo na agricultura e nem os dilemas das tradicionais ruralidades. Deliberadamente, restringiram o mais puro e santo que trazíamos grudados no corpo e na alma, o furor da juventude para construir uma nova história e transformar o mundo. O “tempo não para”. Arrependimentos inexistem, mas felicidades pelos feitos, alguns heroicos. Os registros são inexoráveis em sua diversidade oral, escrita, musicada e contada com os vieses de vencedores. Concluímos a missão: engenheiros agrônomos formados e cumpridores de honrosas missões. Como escreveu o poeta Mario Quintana: “todos esses que aí estão atravancando meu caminho, eles passarão ... eu passarinho!”.

[Memorial da turma de Engenheiros Agrônomos de 1973 e contemporâneos. JM Gráfica e Editora Ltda. Cruz das Almas - Bahia - 2021].

Manoel Moacir C. Macêdo, Gutemberg A. Diniz Guerra & Renato Brasileiro Júnior, são engenheiros agrônomos.

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