CICLOVIAS

Mobilidade e qualidade de vida

Marcio Monteiro, 14 de Abril , 2022 - Atualizado em 21 de Maio, 2022

A mobilidade é desafio crescente num mundo cada vez mais urbano. O grau de eficiência da mobilidade urbana é também determinante à qualidade de vida em geral, influenciando a saúde física e mental das pessoas.

Neste contexto, os corredores cicloviários têm sido cada vez mais integrados aos espaços urbanos e precisam ser tratados com mais zelo; tanto na elaboração quanto na execução dos projetos arquitetônicos de novas vias cicláveis do município. Planos de construção de ciclovias em geral são elaborados da mesma forma que os demais projetos de outras temáticas de responsabilidade da administração municipal. Seguem as mesmas práticas de engenharia, como se cada etapa da ciclovia fosse um elemento construtivo único, quando na verdade deveriam priorizar o fluxo contínuo nas ciclovias, não figurando apenas como “faixa de não-perturbação do fluxo de veículos”.

Há ciclovias que parece terem sido feitas para pagar promessa eleitoral e concebidas como obras de importância secundária. São ciclovias que contrariam um princípio básico de mobilidade que é o de permitir a ligação de um ponto A a um ponto B, sem descontinuidade e obedecendo um plano geral de integração.

Além disso, algumas ciclovias são construídas para serem disputadas por pedestres, ciclistas e até veículos e ciclomotores que invadem essas áreas de uso restrito ou exclusivo. Os materiais utilizados no revestimento desses corredores são geralmente de baixa qualidade, com juntas de dilatação do piso subdimensionadas e que por esta razão degradam-se em pouco tempo de uso, criando desníveis que são verdadeiras armadilhas para os usuários.

Em relação à capital, o prefeito Edvaldo Nogueira vem entregando trechos novos e realizando manutenções nas ciclovias existentes, embora persista um déficit municipal considerável a ser reduzido. Não ficará nada bem para qualquer gestor municipal de Aracaju não completar a integração da rede de ciclovias de Aracaju antes de concluída a ciclovia interestadual Aracaju a Salvador.

Em 2015, foi desenvolvido pela Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito – SMTT, o Plano Diretor de Mobilidade Urbana de Aracaju (PlanMob). Trabalho elaborado por engenheiros especialistas em tráfego e que deve ser continuamente aprimorado à medida que a cidade cresce e demande cada vez mais meios e modos de transporte: coletivo e individual; público e privado.

Um dos meios de transporte que mais ganharam protagonismo nas grandes metrópoles do mundo, sem dúvida foram as bicicletas. Não somente por estarem associadas à prática saudável de exercício físico ao ar livre, mas por serem veículo acessível para a maioria da população em razão de sua agilidade de locomoção em áreas de trânsito intenso e de baixo custo de aquisição e manutenção.

Em recente artigo sobre planejamento urbano, a ex-secretária de transportes da cidade de Nova York, Janette Sadik-Khan, relata que ao longo dos seis anos em que esteve à frente do referido orgão, observou um movimento crescente de priorização dos pedestres e ciclistas no planejamento do espaço urbano nas grandes cidades do mundo, e que apesar dos esforços empreendidos por especialistas, muitas das experiências não deram certo.

Janette destaca a importância de se traçar estratégias de como trabalhar planos específicos sobre a temática, e em se tratando de mobilidade urbana, as ciclovias só terão razão de ser quando construídas para que ciclistas possam pedalar com segurança de um local para outro, sem interrupções de trajeto e comprometimento de sua segurança.

Portanto, fica evidente que na elaboração de qualquer projeto de mobilidade ao longo de diferentes rotas, o gestor público deve procurar garantir o apoio de moradores e das empresas afetadas pelas mudanças. Importante que também o município esclareça os cidadãos sobre como as decisões são tomadas pelo órgão responsável pelo planejamento e incentive a participação da comunidade no processo para entender o que os usuários desejam.

Realizar audiências públicas protocolares pode não ser o suficiente para entender os problemas de uma comunidade. Em se tratando de ciclovias, não basta quantificar os fluxos de ciclistas e de pedestres. É preciso dialogar com os moradores da região e potenciais usuários. O envolvimento do cidadão é também fundamental para a redução do nível de ansiedade em relação às intervenções que serão necessárias para a execução de um projeto.

Um terço dos brasileiros deslocam-se diariamente de casa para o trabalho, e vice-versa, e outros milhões locomovem-se para estudar ou realizar afazeres pessoais. A partir da pandemia do COVID 19, cresceu o temor do risco de contaminação através do uso transporte público ou mesmo em carros de aplicativos; assim como uma queda na renda média da população.

O uso de carro particular tornou-se quase um artigo de luxo em razão da elevação dos custos envolvidos em sua aquisição e manutenção. A solução encontrada pelo cidadão comum foi de ajustar a sua rotina diária ao limite da capacidade do seu bolso, aderindo ao uso de motos ou bicicletas como alternativas mais sustentáveis.

O código brasileiro de trânsito prevê que os ciclistas têm prioridade sobre os veículos automotores e os pedestres preferência em relação aos ciclistas. Logo o município deve manter uma política que facilite a vida do pedestre, bem como de estímulo ao uso de bicicletas, promovendo a integração com os demais modais de transporte, especialmente em se tratando de Aracaju, por sua natural configuração topográfica favorável, com predomínio de áreas planas. Como a Grande Aracaju dispõe de sistema de transporte integrado de transporte público (ônibus), os terminais poderiam ser esses pontos de ligação das ciclovias, buscando alternativas quando houver problema de limitação espacial para que as vias sigam em paralelo com o corredor de transporte de veículos.

O ex-prefeito João Alves Filho foi um grande admirador do pensador urbano Jaime Lerner, e imediatamente após assumir a sua primeira gestão como prefeito da capital contratou o escritório do arquiteto paranaense para planejar o desenvolvimento urbano da capital. Um dos projetos sugeridos por Lerner foi de adoção do sistema integrado de transporte coletivo público: integração de terminais de transporte coletivo, adotado com sucesso em Curitiba e outras cidades, sendo  implantado de imediato e que opera com relativo sucesso até hoje em Aracaju.

Na última gestão à frente da Prefeitura de Aracaju, João Alves contratou mais uma vez o escritório de Lerner para outros projetos, dentre os quais o de planejamento da rede de ciclovias da capital e que integra o PlanMob. Portanto, temos um plano de referência pronto para que o município busque os recursos necessários para a execução das obras de expansão da rede municipal de ciclovias.

Aracaju precisa avançar no sentido de transformar-se em uma cidade sustentável de modo a priorizar a chamada “mobilidade verde”; conceito que busca facilitar a vida do cidadão nos seus deslocamentos à pé, de bicicleta ou por transporte público, com desenho de vias e planejamento urbano multimodal.

Dessa maneira, qualquer readequação dos planos de mobilidade na capital deve proporcionar condições adequadas para que o cidadão seja incentivado a migrar do modal motorizado para o ciclo viário. Por consequência, estaremos reduzindo os impactos ambientais, trazendo mais segurança e agregando qualidade de vida para os aracajuanos.

A propósito, Aracaju está devendo uma homenagem a Jaime Lerner, falecido em 2021, em reconhecimento às muitas contribuições do arquiteto ao planejamento urbano da nossa Aracaju, quem sabe nomeando uma nova rua ou avenida da cidade e eternizando esse merecido agradecimento.

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