A MÍDIA DEBOCHA DOS NORDESTINOS

Por Jerônimo Peixoto

Jerônimo Peixoto, 23 de Abril , 2023 - Atualizado em 28 de Abril, 2023

A MÍDIA DEBOCHA DOS NORDESTINOS

 

Por ser o centro econômico e financeiro do país, o Sudeste de arvora em ser o detentor de nosso estilo de falar. As produções musicais, os filmes e as novelas, ali produzidas, nos revelam o quanto isso é verdade. Programas televisivos ajustam o sotaque dos apresentadores ao estilo do eixo Rio-São Paulo, para que o país inteiro comece a falar de igual modo. E isso não é sem intenção. Acreditam que, se tirarmos São Paulo do Brasil, não seríamos mais o Brasil, porque morreríamos a mingua, sem qualquer refrigério, sem poderio econômico. Daí a necessidade de o país inteiro pensar, falar e viver como se todos fossem de São Paulo.

Quando há uma produção feita pelos grandes artistas daquela região sobre o Nordeste, aparecem figuras estrambóticas, caricaturizadas, ridículas, com um sotaque desalinhado do que se fala em cada estado. Outro dia, vi, numa novela de uma emissora tradicional, um nordestino falando com sotaque arranjado e usando expressões totalmente desconhecidas dos que vivem na região onde a peça fora gravada. É um insulto ao nosso modo de ser e de existir, com toda a enorme riqueza que temos, com nossas expressões, verbos e sotaques. Quem é de Sergipe não pode falar igual a quem é de Pernambuco. Há uma variação enorme na linguística de cada povo, de cada cultura. variação cultura, social que identificam cada sotaque e enriquecem o regionalismo, um grande contributo à língua culta.

Se olharmos para São Paulo, como os demais estados,  percebemos que sua cultura é constituída de inúmeros saberes e de variados falares, sob a influência autóctone, de imigrantes estrangeiros e de imigrantes brasileiros. Mas, a norma por lá utilizada é a de depreciar quem fala de forma diferente. Para eles, todos os nordestinos são “baianos”, e o Nordeste é uma região inferior, objeto de escárnio, de mangação, de ridicularização. Também, com menores proporções, isso é válido para outras regiões, Norte, Centro-Oeste e Sul, mas o Nordeste é objeto de maiores caricaturas nos famosos programas de humor, nas telenovelas e nas imagens que se apresentam ao público em geral.

Pior é ver que artistas nascidos no Nordestes, em nome da fama e do dinheiro, vendem-se à ideia de que vieram de uma subcultura e, também eles, começam a invocar uma espécie de linguagem padrão, para se libertarem da opressão de si mesmos. Desnordestinizar-se é um modo de angariar fama, ainda que a custa de esculacho com a riquíssima cultura nordestina. Eles e elas, com raras e boa exceções, com poucos dias no Sudeste, já se adaptam ao sotaque e às expressões locais, desprezando toda a estrutura linguística em que foram criados. É um complexo de inferioridade gigantesco para consigo, para com os seus pares e uma ratificação de que o melhor modo de falar é o do eixo linguístico São Paulo-Rio, com seu arsenal econômico.

Ainda mais triste é ver que pessoas que saem das plagas nordestinas e se estabelecem no Sudeste, com pouco mais de um ano, retornam falando “diferente” e nunca mais se adaptam ao sotaque de origem. Poucos meses em São Paulo são capazes de aniquilar uma vida inteira, no contexto familiar e cultural em que nasceu, viveu. É como se falar com sotaque paulistano, ou paulista, retirasse a pessoa de uma condição de miserabilidade econômica, social e cultural. Já conheci muitos que se botaram para  a terra da garoa, experimentaram o calvário, retornaram, melhoraram de vida aqui, no nosso torrão, mas ainda se orgulham de dizer: “Ah!, em São Paulo é tudo melhor”! Então, pergunta-se: Sob qual olhar São Paulo é bem melhor?

Outra tristeza que me invade o coração é saber que essas pessoas vivem no submundo de São Paulo, em situações piores do que as que aqui deixaram, mas, retornando, desconhecem os pobres com quem se criaram e conviveram. Tornam-se metidos e repletos de amnésia, com uma atenção voltada apenas para quem é importante, sob a ótica empobrecida de enxergar a realidade. Isso, obviamente, não vale para todos. Mas, cá para nós: por que quem vai para o Sudeste se esquece rapidinho do sotaque de sua gente, e, ao se restabelecer entre os seus, não se esquece do sotaque de lá? A resposta é ALIENAÇÃO. Foi-lhe incutido que o Nordeste não presta, que só há miséria e atraso de vida, submundo amaldiçoado pelos deuses.

A nossa educação não valoriza o regionalismo. Nossas produções didáticas quase sempre só contêm poesia, letra de música de autores renomados, que são ou que se estabeleceram no Sudeste. E a meninada, podem reparar, já está falando com um “tch” quanto a terminação é em “te”, para se adequar melhor à massificação que fazem sobre nossa riquíssima cultura. Eu amo a minha terra, minha cultura e meu sotaque. Tenho orgulho de ser quem sou, filho de quem sou e nato onde nasci, plagiando o Rei do Baião, nosso Velho Gonzaga. Suassuna, outro defensor da cultura regional, afirmou: “não troco meu oxente pelo ok de seu ninguém”. Eita, Cabra bom!

Podem mangar de mim! Podem me rebaixar! Mas, uma coisa é certa: continuarei a ser sergipano, nordestino, com muito orgulho. Em meus escritos, a alma sergipana  estará bem viva, pois é a sergipanidade, com toda a mangação, com o cabrunco e com o caranguejo, com a farinha de mandioca, com o forró, com o cordel, com o beiju de tapioca e com as feiras e pegas de gado, com as crendices e com as expressões de religião, com o samba de coco, com o reisado, com o brinquedo de roda e com tudo o que nos faz sergipanos, que me interessa, pois ela diz quem eu sou. Não desejo discriminar ninguém, nem pretendo usar de preconceito, mas sonho com o fim da discriminação que nos caricaturiza e deseja nos rebaixar ao xeol da cultura. Viva o nosso sotaque! Viva a nossa Cultura! Viva o Nordeste! Viva Sergipe com sua riqueza, com seus encantos e belezas!

Está na hora de a mídia se desculpar e passar a apresentar o Brasil ao Brasil, sem preconceitos, sem depreciações e sem se vender a normas meramente discriminatórias, construtoras de exploração econômica e devastação cultural. Viva o nosso jeito de ser, pois ele é sempre o melhor, porque totalmente nosso!

                                                                                                          Jerônimo Peixoto.

 


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