Psicólogo explica como a qualidade das relações sociais influencia o cérebro, o sistema imunológico e o bem-estar ao longo da vida
Em pleno século 21, uma frase escrita há mais de 400 anos continua resumindo uma das principais descobertas da ciência sobre qualidade de vida: “Nenhum homem é uma ilha.” A afirmação do poeta e filósofo inglês John Donne ganha força diante de pesquisas que apontam as relações sociais como um dos pilares da saúde e da longevidade. Em uma sociedade conectada por telas, fortalecer vínculos significativos torna-se tão importante quanto cuidar da alimentação ou praticar exercícios.
Essa percepção é reforçada por um dos mais longos estudos sobre desenvolvimento humano, conduzido pela Universidade Harvard, que identificou os relacionamentos de qualidade como um dos principais fatores associados à felicidade, à boa saúde e à longevidade. No mesmo sentido, a Organização Mundial da Saúde (OMS) passou a tratar as conexões sociais como uma prioridade global de saúde, diante do crescimento da solidão e do isolamento social em diferentes partes do mundo.
De acordo com o psicólogo e professor da Universidade Tiradentes (Unit), Francisco Vitor Soldá, as relações interpessoais são hoje reconhecidas como um importante determinante da saúde, já que estudos mostram que pessoas com redes de apoio fortalecidas apresentam melhores indicadores de saúde e tendem a viver mais. “É claro que a percepção subjetiva acerca da qualidade dessas relações é um fator muito importante nessa avaliação. Muitas vezes, não basta estar conectado. O apoio social percebido tem sido apontado como um fator protetivo na saúde mental na medida em que as pessoas envelhecem, incluindo uma avaliação da satisfação com as relações estabelecidas”, explica.
Segundo estimativas da OMS, quase um milhão de pessoas morrem todos os anos em decorrência de consequências relacionadas à ausência de vínculos sociais. “Pesquisas mostram relação direta entre viver sozinho e maior probabilidade de desenvolver doenças cardiovasculares, transtornos como depressão e ansiedade, além de declínio cognitivo. A falta de contato social pode ativar respostas de estresse que afetam sistemas endócrino, imune e cardiovascular, gerando alterações hormonais e processos inflamatórios ligados a doenças crônicas”, elenca.
Sozinho ou solitário?
Embora muitas vezes sejam usados como sinônimos, estar sozinho e sentir solidão não representam a mesma experiência. “Estamos descobrindo que estar fisicamente sozinho não é sinônimo de solidão emocional. Como explica o psicólogo David Sbarra: são experiências conectadas, mas não equivalentes. O contexto, a idade e o significado dado àquele tempo sozinho fazem toda a diferença. É importante entender que a solidão não está no silêncio, mas na falta de sentido do silêncio. Podemos ficar solitários com a mesma facilidade em meio a uma multidão, em um relacionamento amoroso ou entre amigos. Sentir-se só pode pesar mais do que estar sozinho”, pontua.
Quando essa sensação de solidão se prolonga, o cérebro passa a interpretar o isolamento emocional como um estado permanente de ameaça. “Isso eleva o estresse, prejudica a qualidade do sono e enfraquece o sistema imunológico. Na saúde mental, é o principal combustível para a ansiedade e a depressão. Por isso, cuidar do bem-estar não é sobre encher a agenda de compromissos sociais, mas sobre cultivar relações onde a gente se sinta verdadeiramente visto, ouvido e compreendido”, alerta.
Proteção na velhice
Na terceira idade, os efeitos positivos das conexões sociais tornam-se ainda mais evidentes. Para o professor, amizades construídas ao longo da vida funcionam como um verdadeiro fator de proteção para a saúde física e emocional. “Vínculos sociais sólidos influenciam não apenas o humor, mas também processos fisiológicos essenciais, retardando o envelhecimento, reduzindo inflamação e fortalecendo o cérebro. Um estudo publicado na revista Brain, Behavior and Immunity Health apontou que pessoas que cultivam relações sociais de qualidade ao longo da vida envelhecem mais devagar, não apenas no comportamento, mas em nível celular”, avalia.
O contato frequente com outras pessoas também ajuda a preservar capacidades cognitivas e pode diminuir o risco de doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer, já que conversas e interações afetivas mantêm o cérebro ativo. “Além disso, o apoio emocional funciona como um amortecedor contra o estresse crônico. Quando temos com quem contar, os níveis de cortisol (o hormônio do estresse) diminuem, o que protege o coração, controla a pressão arterial e fortalece o sistema imunológico. Envelhecer com amigos não é apenas viver mais, é viver com autonomia e propósito”, ressalta.
Tela não substitui
Com o avanço das redes sociais e das mensagens instantâneas, é comum acreditar que as interações virtuais sejam suficientes para suprir a necessidade de convivência. No entanto, o especialista ressalta que elas não conseguem substituir totalmente os benefícios do contato presencial. “Benefícios específicos que só a convivência direta proporciona: o contato presencial ativa mecanismos neurobiológicos de conexão (como liberação de oxitocina) que as interações digitais não replicam plenamente, proporciona sincronia emocional mais profunda através de sinais não verbais completos, e cria memórias compartilhadas mais duradouras”, conta.
Alguns sinais podem indicar que o isolamento social já está comprometendo a saúde emocional. “Entre os sinais comportamentais importantes, destacam-se: afastamento progressivo de familiares e amigos, recusa em participar de atividades sociais, alterações no padrão alimentar, descuido com higiene pessoal e negligência de responsabilidades. Além disso, outros indicadores incluem perda de interesse por coisas que gostava, dificuldade para dormir ou dormir demais, comer muito mais ou muito menos, sensação persistente de vazio ou desesperança, evitar contatos sociais mesmo quando há possibilidade. Se várias dessas coisas durarem mais de duas semanas, é hora de agir”, enumera.
Mesmo para quem tem uma rotina intensa, fortalecer os vínculos sociais não exige grandes mudanças. Segundo Soldá, pequenas atitudes do dia a dia podem fazer diferença. “Podemos começar com micro-momentos de presença, como pequenas pausas durante o dia para respirar profundamente ou se expor ao ar livre por alguns minutos. Outro ponto forte é a otimização da rotina, ou seja, integrar a socialização a atividades que já realizamos, como transformar o almoço de trabalho em um momento de real conexão ou participar de grupos de leitura, caminhadas e aulas coletivas. Além disso, o compartilhamento genuíno de sentimentos e experiências e o uso intencional da tecnologia, escolhendo ligar por vídeo em vez de apenas mandar texto, por exemplo, transformam interações superficiais em conexões reais, sem demandar mais tempo do nosso dia”, finaliza.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit
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