Com as férias de julho, muitas famílias enfrentam o desafio de entreter as crianças em casa enquanto mantêm suas rotinas habituais. Para além das tentativas de preencher cada minuto livre, especialistas em educação apontam uma alternativa menos convencional: o tédio.
Deixar espaço para o tédio pode ser fundamental para estimular a criatividade, autonomia e capacidade de concentração das crianças durante este período. No entanto, o tempo livre também costuma resultar em um aumento significativo das horas em que crianças e adolescentes ficam expostos a telas.
Um levantamento realizado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, revelou que 78% das crianças de até 3 anos têm contato diário com telas. Para os pequenos de 4 a 6 anos, esse número sobe para 94%. A Sociedade Brasileira de Pediatria recomenda que crianças até 2 anos não tenham contato com telas. Para aquelas de 2 a 5 anos, o ideal é um máximo de uma hora diária, enquanto para crianças de 6 a 10 anos o limite sugerido é de uma a duas horas por dia. Na prática, controlar esse tempo se torna complicado em um ambiente digital que visa reter os usuários.
“Os jovens raramente têm tempo para simplesmente existir sem entretenimento imediato. Mas é nas pausas que surgem a curiosidade, a criatividade e conexões mais profundas com o mundo”, afirmou Anne Baldisseri, diretora da Escola Avenues São Paulo.
O uso excessivo de telas pode impactar o desempenho cognitivo das crianças e adolescentes. Uma pesquisa conduzida por Jason Nagata, professor da University of California, San Francisco, e publicada no JAMA, acompanhou 6.554 adolescentes de 9 a 13 anos. O estudo identificou que aqueles que faziam uso elevado e crescente de redes sociais apresentavam desempenho cognitivo inferior em leitura, vocabulário e memória.
Esse padrão foi associado à exposição constante a conteúdos que proporcionam recompensas rápidas, reduzindo o tempo disponível para processos reflexivos mais profundos. O estudo concluiu que mesmo um pequeno aumento no tempo dedicado às redes sociais pode afetar habilidades como memória e leitura.
“É esse desconforto que abre espaço para a invenção e o brincar livre”, comentou Daniela Pannuti, diretora do Ensino Fundamental I da Avenues São Paulo, sobre o papel do tédio.
Os educadores destacam que a discussão não visa demonizar a tecnologia, mas promover um equilíbrio. Ferramentas digitais podem ser úteis para aprendizado e socialização, mas o contato constante com estímulos rápidos dificulta a concentração profunda.
Durante as férias, muitas famílias sentem a pressão de preencher a agenda dos filhos com atividades, viagens e cursos. Segundo Pannuti, essa sobrecarga pode ter o efeito oposto ao desejado, aumentando o estresse e dificultando a recuperação mental.
Assim, é fundamental que nem todos os momentos da vida das crianças sejam planejados ou produtivos. Períodos de ócio são essenciais para que as crianças organizem seus pensamentos, desenvolvam ideias próprias e fortaleçam a independência, sem depender de estímulos externos.
Atividades simples como brincar sem roteiro, ler, cozinhar, desenhar, caminhar ou conversar com familiares podem ser valiosas. Os especialistas também recomendam alternar esses momentos com experiências ao ar livre, que favorecem a curiosidade e o contato com o ambiente.
Uma boa alternativa para equilibrar os estímulos e o tempo livre pode ser uma programação de férias voltada para a natureza, com projetos criativos e brincadeiras livres. No entanto, a principal recomendação é evitar a necessidade de ocupar todo o tempo: abrir espaço para o “não fazer nada” também é parte do desenvolvimento.
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