A IGREJA VELHA

UM MARCO DA FÉ

Jerônimo Peixoto, 21 de Novembro, 2019 - Atualizado em 22 de Novembro, 2019


A IGREJA VELHA, UM MARCO DA FÉ

Hoje, apenas ruínas testemunhando um passado rico, uma história repleta de estórias, de lendas e de uma criatividade sem precedentes. O que restou da Capela de Santo Antônio, num emaranhado de arbustos e cipós, ajuda a compreender o passado, a origem e a confecção da Serrana Bela.

A uma curta distância das margens do velho Jacarecica, com os olhos voltados para a Serra, numa paisagem deslumbrante, altamente suntuosa para o seu tempo, erigiu-se, no início do Século XVII, a capela do vilarejo que nascera ali, no ponto mais alto do tabuleiro, com o fito de explorar as possíveis riquezas minerais na Serra de Itabaiana. Ah! Serra! Sempre motivando a sua gente a novos desafios, a venturas desmedidas!

O Santo Casamenteiro ali se instalou, para fazer da bucólica e agreste localidade sua morada definitiva, em torno da qual o casario se ergueu, a fim de dar corpo à vila real. Por vezes, até os santos são manipulados pelas mentes férteis e estrategistas de homens e mulheres que deixam marcas indeléveis na história. Os dias de Santo Antônio, na pequena aldeia estavam contados. Deveria mudar-se para outro local, onde a água era escassa, mas o sonho de uma propriedade eclesiástica, em que se poderia erigir uma paróquia sob o mesmo patrocínio do Santo das coisas perdidas, legitimaria o tal êxodo.

O Vigário de São Cristóvão, que fazia as desobrigas por essas bandas, encarregou-se de encetar a transferência, com a saga do Santo fujão. Itabaiana foi assentada à sombra da Quixabeira, nas antigas terras de Ayres da Rocha Peixoto, deixando para trás o encanto da pequenina povoação de Santo Antônio. Ali, vivia-se margeando o Rio Jacarecica e despertava-se, a cada aurora, sob a encantadora vista da Serra que parecia se curvar, para abraçar os moradores da região.

O vigário, com suas razões particulares, conseguiu seu intento. E a capelinha, deixada para trás, mergulhou em extremada nostalgia: Perdera-se o costume das rezas e das ladainhas intermináveis, do ajuntamento de senhoras piedosas, de moças interessadas em negociar com o Padroeiro um bom pé de meia, em troca de uma dezena de Ave-Marias ou de um Rosário inteiro, a depender do Partido... Não mais houve procissões, nem novena, nem a reunião da Irmandade do Rosário, nem batizados... Tampouco promessas para se sair do caritó! Uma avalanche de tristeza invadira o modesto oratório.

A Capela, que à época era nova, desgastava-se visivelmente, no invólucro de sua medonha tristeza. Suas portas e janelas cerraram-se, e a luz solar só a visitava pelas frestas do telhado que, paulatinamente, crescia em arrobas, empenando as tesouras, empurrando para as laterais as íngremes e visivelmente intrépidas paredes de pedra. Quedara-se inerte e sem serventia alguma.

O tempo se encarrega de tudo. Há décadas, um tilintar de ferramentas, o pilheriar dos construtores, as juntas de bois a moverem as toras, os carros a despejarem as pedras, e as beatas curvando os joelhos, ansiosas por verem a festa da inauguração. Com a saída forçada do Santo, a indesejável quietude se apoderara. Só uns maribondos, não por devoção, assim como os ratos e os saruês, ali se achegavam para fincar provisória moradia.

Mesmo em meio à angústia do esquecimento, a Igreja Velha, que dera origem à povoação de Itabaiana, atravessou séculos, presenciou indelicadezas e grosserias, mas resistiu, embora despedaçando-se, e hoje tem história para contar. A pedra do Rastro, que fica agora submersa nas águas do Jacarecica, emperradas pela barragem, ao longe, ouvia as lamúrias das ruínas, sem poder dar jeito algum.

As “pracatinhas” de Santo Antônio marcaram a pedra, marcaram a areia da estrada. Porém a grande marca ficou cravada na alma da velha edificação que se ressentia, sem ter quem a ouvisse ou a acalentasse. Tornou-se uma Eremita, na solidão do mato, sem o aconchego e sem a deferência devida. Sem votos, sem vontade, recebeu a áspera missão de ser apenas uma seta apontando para o alto, enquanto permaneceu de pé. Depois, aos trapos, continuou apontando para o futuro, relembrando um passado só seu, que serve de raízes profundas, fincadas no chão do esquecimento, para dizer aos ceboleiros: aqui nasceu a fé de Itabaiana.

A Igreja Velha é um marco histórico riquíssimo. Quem sabe, um dia, haja quem lhe refaça o brio de sua suntuosidade e a coloque na rota do turismo histórico-religioso, devolvendo-lhe a altivez de outrora. Reza, ruina! Pede... Tua fé te salvará!

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