O Mito de Lampião.

Por Antônio Samarone

Redação, 22 de Dezembro, 2019 - Atualizado em 22 de Dezembro, 2019


Recebi de um amigo, conceituado historiador baiano, trechos do seu próximo livro sobre Lampião. Relatos de atrocidades, crimes, brutalidades, violências praticadas pelo Rei do Cangaço. Tudo pretensamente documentado. Para ele Lampião foi um facínora.

Não me toquei com aquilo. O Lampião que está em minha memória é outro. Onde está a contradição? Por que fatos “históricos” tão recentes perderam importância?

O Lampião que está no inconsciente coletivo do nordestino tornou-se um mito. Criado por um conjunto de lendas, estórias populares transmitidas oralmente, estórias anônimas. Cantado pelo cordel. Estórias reais ou imaginárias.

“Leitores, vou terminar/Tratando de Lampião
Muito embora que não posso/Vos dar a resolução
No inferno não ficou/No céu também não chegou
Por certo está no sertão.”
(A chegada de Lampião no Inferno, de José Pacheco)

Os heróis gestados no seio do povo: Lampião, Conselheiro, Zumbi, Padre Cícero, cada um a seu modo, são personagens da cultura popular, sobretudo dos nordestinos.

Entendo mito como uma narrativa, um discurso, uma fala. Uma forma das sociedades espelharem as suas contradições, exprimirem e os seus paradoxos, dúvidas e inquietações. Uma forma de reflexão sobre a existência, o cosmos, as situações de "estar no mundo" ou as relações sociais.

O mito é uma narrativa fabulosa, alegórica, inacreditável, sem realidade. A sua "verdade" deve ser procurada num outro nível. Na visão de numa outra lógica. Não é uma narrativa qualquer.

O mito é a história poetizada. Na visão de Jung, os mitos estão no inconsciente coletivo.

Segundo Lévi-Strauss não é possível entender um mito se nós formos lê-lo como se lê uma reportagem de jornal, um livro ou um romance. Quem quiser mais detalhes sobre os mitos, leia “Mito e Significado”, do próprio Strauss.

Talvez por isso, a história cientifica sobre Lampião do amigo baiano, me pareceu exagerada, inverossímil.

Visitei um Colégio de Freira no último São João, e as meninas estavam fantasiadas de Maria Bonita e os meninos de Lampião. Transformaram a quadrilha francesa, num bailado sertanejo. Todos dançando xaxado. Todos cantando, até as freiras, “acorda Maria Bonita, acorda vai fazer o café, o dia já vem raiando e a polícia já está de pé.”

Eita, pensei, como pode, as freiras tomaram partido do facínora narrado por uma certa história científica? Claro que não...

Lampião virou mito!

Antônio Samarone.

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