PESCARIA DE DOMINGO (Por Jerônimo Peixoto)

Jerônimo Peixoto, 07 de Fevereiro, 2020 - Atualizado em 07 de Fevereiro, 2020

PESCARIA DE DOMINGO

 

Contava bem uns cinco anos, quando meu pai reunia a filharada, juntava-a à de Regino, e saíamos todos cantarolando, nas manhãs de domingo, rumo ao Rio Jacarecica, precisamente ao Poço do Zé Ramos, hoje submerso na grande Barragem, para passar quase o dia inteiro pescando.

Uma breve parada na casa de Tio Tonho (Antônio de Jeronimo Peixoto), e ele vinha pronto, com uma varinha de assa-peixe, na mão, botas sete léguas e umas bananas, num saco, para a merenda. Regino desviou o curso, pela casa de Zequinha Machado, para morder uma casca de imburana. Lá encontrou-se com Zinho, seu cunhado, que se juntou à turma inteira, para melhorar a pescaria.

Os irmãos maiores levavam um pote d’água fresca, uma jaca, umas três garrafas da branquinha, além de varas de marmeleiros, para socar a tocas, no ritual da pescaria; quatro redes, uns seis jererés, dois jiquis e três muzuás, era preciso de tudo isso, para a pescaria ser de primeira.

Quando passávamos em frente à casa de Vicente de André, uns três cachorrinhos famintos vinham-nos insultar, à beira da estrada. Umas pedradas, misturadas à gritaria ensurdecedora era o suficiente para a esposa de S. Vicente soltar gritos de ataques: - Rebanho de moleques! Seu menino, em casa de cachorro se passa com jeito e com respeito! Onde já se viu? Nem os pais dão cobro! Tio Tonho respondia: - Verdade, D. Senhora! Já disse aos meninos que é pra passarem calados na frente da casa de cachorro. Como vai Vicente Priguilo? – Bem, obrigado! Foi dar água à bestinha véia que pariu!

Mais um pouco, e estávamos no poço Zé Ramos, passagem do tijolo para os lados do Zanguê. Ali o rio era promissor. Os homens se retiravam para o mato fechado, a fim de trocarem de roupa e se meterem em trajes apropriados para o mergulho. Uma corrida de pinga passava e todos tomavam um pouquinho, para passar o frio.

Era preciso fazer silêncio, para não espantar os peixes. Regino e seus dois filhos Zé e Antônio mergulhavam nas tocas e traziam traíras, cobras, muçum na mão, sem qualquer constrangimento. Jogavam-nas para fora e, sendo peixe bom, os menores recolhiam para os baldes; sendo cobra ou muçum, seguiam seu destino.

Quando o frio atacava, devido às grandes árvores que emolduravam as ribanceiras do Jacarecica, mais uma talagada. Um foguinho era aceso, com gravetos dali mesmo, sobre a areia. Um punhado de sal sobre uma traíra de meio quilo, já esviscerada e talhadas em gomos milimétricos, era o tempero certo. Aos poucos, um a um, todos comiam do peixe assado com uma mão cheia de farinha. Tio Tonho servia as bananas.

Outra rodada de pinga. Já eram bem umas onze horas. É preciso encerrar a pescaria, pois o que foi capturado já era o suficiente para as quatro famílias comerem durante a semana. O sol estava quase a pino e a estrada era longa. As redes molhadas pesavam um absurdo. Os mais fracos já tragados pela “marvada”, trocavam as pernas. Regino, sempre à frente, dizia: - Compadre, vamos na casa de Chico de Zefinha, que tem da boa! Mais uma rodada, com conversa fiada de meio tontos. O saco de peixes vivos passeava de cabeça em cabeça, com certos tombos devidos a “ela”.

Passávamos a casa de Arlia do Finado Brasilino, tio de meu Pai. Ao lado, a casa de Zouza, onde uma beliscada era certa. Descíamos rumo ao riacho, pelo pasto da velha Moça de Domingo e dávamos de cara com a casa de Tio Tonho, em cujo terreiro acontecia a primeira partilha dos peixes. Ele preferia peixe pequeno, amoreira, piaba, corró. Se não fizéssemos seus gostos, nunca mais iria conosco, pois era cismado em demasia.

Mais uma vez, na casa de Zequinha Machado, para a derradeira. Lá estavam Zé de Fortunato, Antônio de Zé Seda, Zé de Zaquié e Zé de Lourenço, para lá de encharcados. Depois de uma talagada, rumávamos para casa.

Minha mãe se encarregava da partilha final, deixando para Regino e Zinho a quantia justa, pois precisavam de alimentar a família, naquela semana. Angelina ajudava a tratar e a salgar os peixes. Os camarões iam imediatamente à panela, com boa quantia de sal, para acompanhar o feijão. Se houvesse uns três ou quatros pitus, a festa estava pronta.

Após o almoço, um repouso rápido para bater bola, enquanto pai dormia um cochilo, pois bola lá em casa, mesmo aos domingos, só se ele não visse. E assim eram quase todos os domingos, depois que o rio botava cheia e voltava ao seu curso normal. A cada semana, peixe com fartura. Bucho cheio e enxada no chão.

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