Meus Piolhos. (por Antônio Samarone)

Redação, 10 de Fevereiro, 2020

 

 

“Futucando bem/ Todo mundo tem piolho/ Ou tem cheiro de creolina/ Todo mundo tem um irmão meio zarolho/ Só a bailarina que não tem...” -Chico Buarque

Antigamente em Itabaiana, os meninos eram infestados de piolhos. Quase todos. O piolho, era uma praga universal nas escolas. A gente se acostumava com as coceiras. Nem percebíamos. Até gostávamos.

Tudo coçava: piolho (Pediculus capitis), pulga (Pediculus humanus), caseira (oxiúros), chato (Phthirus púbis), bicho de pé (Tunga penetrans), sarna (Sarcoptes scabiei) sovaqueira e chulé. Quando se pisava numa cama de sapo, até a alma coçava.

O ciclo do piolho inicia-se com a postura. Os ovos necessitam de 4 a 14 dias para eclodirem em larvas (as lêndeas), que atingem o estágio adulto em 2 semanas. A maturidade sexual ocorre em 4 horas, com cópula imediata. Sobrevivem de 3 a 4 semanas. Cada piolho põe cerca de 90 ovos. Minha mãe sabia tudo isso.

Os piolhos sempre acompanharam os homens. Já foram encontrados em múmias egípcias de 3.000 anos a.C., em pentes da época de Cristo encontrados nos desertos de Israel e em múmias do Peru pré-colombiano.

Formas de combate:

Catação manual – o piolhento colocava a cabeça no colo da catadora, para um cafuné sanitário pouco higiênico. Se catava um a um, piolho a piolho. Depois se matava o piolho na unha. As lêndeas eram jogadas num pano, que ficava sobre as pernas da catadora. Um boa catadora tinha cuidado para extrair o inseto sem puxar o fio de cabelo.

A minha mãe não era uma catadora paciente, os fios de cabelo não escapavam. Para mim era uma sessão de tortura, que eu reagia balançado a cabeça. Mamãe me acalmava com cascudos. Acho que ela fazia de propósito. Já perdoei a muito tempo.

Passar banha de porco e depois o pente fino, permitia uma retirada mecânica. Às vezes era suficiente, às vezes não. Nos meninos, podia-se apelar para a raspagem da cabeça. Dava muito na vista, todo mundo sabia que a cabeça foi raspada por causa dos piolhos. Depois rasparam a minha cabeça pela aprovação no vestibular. Achei estranho!
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A aplicação de Neocid era um recurso radical contra os piolhos. Aplicava-se o veneno na cabeça do infeliz, cobria-lhe a cabeça com um pano de algodão branco, e horas depois, ao retirar, o pano estava forrado de piolhos. Dava até para contar. A operação precisava ser repetida, o veneno não matava nem os ovos, nem as lêndeas.

Ainda me lembro do som emitido quando se apertava a lata de Neocid, um pof-pof específico, para o veneno sair por um buraquinho na dobra da tampa. Aplicava-se com a lata fechada.

O Neocid antigo era da Bayer, um inseticida em pó à base dos organofosforados, comercializado numa lata (foto) contendo 50 gramas do produto. A mesma composição química do “chumbinho”. Um detalhe macabro: havia uma informação na lata indicando que o veneno era inofensivo para os humanos e animais domésticos.

Hoje se sabe que esse veneno é cancerígeno e teratogênico.

Os piolhos estão voltando!

Recebi um WhatsApp de um amigo, pedindo ajuda para debelar uma infestação de piolhos numa escola na comunidade onde ele mora. A escola está empesteada. Além da lepra, sífilis e tuberculose, os piolhos também voltaram.

Antônio Samarone.

 

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