Pandemia de covid-19: limpeza excessiva pode ser porta de entrada para o TOC

Psiquiatra sergipano, Dr. Alexandre Agacir alerta sobre o assunto.

Redação, 12 de Agosto, 2020

   

A Organização Mundial da Saúde (OMS), já estimava que até 2020 o Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC) estaria entre as dez causas mais importantes de comprometimento por doenças no mundo. No Brasil, estima-se que 4,5 milhões de pessoas sofram com esse transtorno, mas com a pandemia esse número pode ter aumentado assustadoramente, principalmente por causa da limpeza excessiva provocada por medo de contaminação pelo novo coronavírus. Em entrevista, Dr. Alexandre Agacir, psiquiatra e Diretor Clínico da Equilíbrio Clínica Dia em Aracaju, explica como a pandemia de covid-19 se tornou porta de entrada para o problema na vida das pessoas.      
  
Segundo o médico, o aumento da ansiedade em relação à Sars-CoV-2 pode alimentar a obsessão por não se contaminar e desencadear compulsões. “A pessoa que já tem o diagnóstico de TOC, ou que durante a pandemia começa a apresentar muitos sintomas de ansiedade, junto com os sinais característicos dos ansiosos realmente pode desenvolver sintomas obsessivos e compulsivos”, destaca.   
  
 As obsessões se caracterizam como pensamentos recorrentes. “Eles ficam o tempo todo entrando na mente da pessoa, o que chamamos de pensamento intrusivo, o indivíduo não consegue parar de pensar nisso e não faz outras atividades porque fica com esses pensamentos ou imagens recorrentes na mente, e a pessoa só se sente aliviada quando faz a parte motora, ou seja a compulsão, então a pessoa que tem o TOC por limpeza, ou o medo de se contaminar com o coronavírus, ou até mesmo outras doenças, vírus e bactérias começa a ficar angustiada e só se sente aliviada quando faz a compulsão, que normalmente é a limpeza excessiva, a arrumação da casa, lavar as mãos e tomar banho várias vezes, lavar e limpar a casa repetidamente, mesmo que ela já tenha feito e isso traz várias consequências como lesão física e perda de tempo.”, explica.   
  
Para o psiquiatra, a pessoa deve ficar atenta aos sinais que podem resultar no diagnóstico de TOC. “Nós já sabemos o que precisamos fazer nesta pandemia, lavar as mãos, desinfectar superfícies, usar máscara, porém se a pessoa faz todas essas ações repetidas vezes, mesmo quando ela já executou o ato e repete porque acredita que ainda não está completamente limpo, ou a pessoa se nega a sair de casa, pois acha que em qualquer situação vai se contaminar, fazendo com que o isolamento seja intensificado contribuindo para o aparecimento de ansiedade e sintomas depressivos também, esta já é uma situação em que o indivíduo deve buscar ajuda”, afirma.   
  
Quem tem TOC tem áreas do cérebro que são hiperativadas, fazendo com que os pensamentos aconteçam de forma obsessiva e o comportamento seja compulsivo. “Muitas pessoas tem vergonha de falar sobre o assunto, algumas delas já começam a ter TOC na infância e na adolescência, e tem períodos que o transtorno piora durante a vida adulta. Vale ressaltar que a doença não se restringe apenas a limpeza, mas também em relação a simetria, como deixar as coisas alinhadas e organizadas, imagens que a pessoa pode achar que sejam obscenas ou coisas que ela tem medo de fazer. Esses pensamentos são angustiantes, então a pessoa pode ter durante a história de vida dela, modificação da apresentação clínica, e a pessoa se sente muito envergonhada de fazer esses rituais de limpeza, e ela tenta esconder isso da família e dos amigos, acorda mais cedo, ou faz isso em casa sozinha, verifica portas, janelas, as vezes fecha com muita força as torneiras e chega até mesmo a estragar objetos”, esclarece.   
  
Quem tem TOC possui consciência que aquilo é exagerado, mas não consegue evitar. Infelizmente, de acordo com as pesquisas, as pessoas procuram tratamento só após 10 anos de apresentação de sintomas e muito sofrimento acarretando um sério prejuízo social. “Os pacientes respondem muito bem ao tratamento, a Terapia Cognitivo Comportamental (TCC)  é uma forte aliada, pois trabalha principalmente o treinamento e exposição das pessoas a situações de risco ou que são ansiogêncicas pra ela. O terapeuta fará uma lista junto com seu paciente das situações de risco e que causam a ansiedade e vai começar o tratamento mentalmente. Com o tempo vai se passando as situações imaginárias e depois reais em consultório e no dia a dia, como por exemplo, tocar em um objeto que a pessoa ache que está contaminado e aguardar 10 minutos, pois depois deste período, ela descobrirá que os pensamentos terríveis que ela teve não se concretizaram e isso vai proporcionado uma melhora no quadro. Além da terapia, a medicação é outra aliada, sempre com orientação do psiquiatra, em casos mais graves é preciso usar medicação e terapia ao mesmo tempo, é preciso verificar também se há outros casos na família, pois o TOC também tem base genética”, finaliza. 
Fonte e foto: Jornalista Rodrigo Alves.  

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