Cenipa apresentou relatório em 23/7/2026 que aponta cultura de omissão no acidente da Voepass, que deixou 62 mortos em Vinhedo em 9/8/2024. Tenente-coronel Paulo Mendes Fróes cita 19 fatores.
O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos), da FAB (Força Aérea Brasileira), apresentou, na quinta-feira (23 de julho de 2026), um relatório que revela uma “cultura organizacional” de omissão de falhas como um dos fatores que contribuíram para o acidente da Voepass, ocorrido em agosto de 2024. O evento resultou na morte de 62 pessoas em Vinhedo (SP) no dia 9 de agosto de 2024. A avaliação foi feita pelo tenente-coronel Paulo Mendes Fróes.
O relatório encerra a investigação técnica sobre a queda do voo 2283, que apontou 19 fatores contribuintes, abrangendo falhas operacionais, técnicas, organizacionais e regulatórias. Um dos principais problemas identificados foi a ausência de registros formais de falhas no sistema de degelo em três voos que antecederam o acidente.
Os voos que precederam o acidente foram: o voo -3, realizado na noite anterior, de Guarulhos a Ribeirão Preto; o voo -2, na manhã do acidente, de Ribeirão Preto a Guarulhos; e o voo -1, de Guarulhos a Cascavel, que teve a mesma tripulação do voo 2283. Durante esses voos, o sistema de degelo apresentou falhas, mas não houve comunicação formal das panes no diário de bordo.
“Não só essas 3 tripulações, mas outras demais tripulações também executavam esse tipo de procedimento, onde a gente viu que isso era uma cultura organizacional”, afirmou Fróes.
A falta de registros impediu que as falhas fossem formalmente submetidas à manutenção, o que poderia ter evitado o acidente. No voo do acidente, a tripulação tinha conhecimento da falha, mas manteve a ascensão até 17.000 pés, onde havia previsão de gelo severo. Isso resultou em acúmulo de gelo, perda de velocidade e ativação de alertas de degradação de desempenho.
Os procedimentos adequados não foram seguidos, e o avião entrou em stall, perdendo sustentação antes de cair. O relatório destacou que a aeronave foi despachada com o sistema de degelo em pane, o que levou ao aumento do arrasto e à trajetória descendente.
A investigação utilizou o modelo do “queijo suíço” para ilustrar que os acidentes não são causados por uma única falha, mas sim pela combinação de diversas fragilidades no sistema de segurança. A apuração se estendeu a 1.206 voos do mesmo modelo de avião e 15.365 operações da frota de ATR da Voepass.
De acordo com o tenente-coronel aviador Paulo Henrique Soares, o comportamento de não registrar falhas não era exclusivo dos pilotos do acidente. Ele observou que várias tripulações adotaram a mesma prática em outros voos, onde, em alguns casos, as barreiras funcionaram e o acidente não ocorreu.
A análise comparativa da FAB revelou que a Voepass apresentava o maior percentual de acionamentos do APM, sistema que monitora a perda de desempenho da aeronave, com 10,9% dos voos registrando alertas.
Em resposta, a Voepass declarou que o acidente foi o “episódio mais difícil” de sua história, expressando solidariedade às famílias das vítimas. A empresa ressaltou que, em mais de 30 anos de operação, adota procedimentos de segurança alinhados a padrões internacionais e que os pilotos do voo 2283 eram experientes e devidamente certificados.
A companhia destacou ainda sua colaboração com o Cenipa e demais autoridades desde o início das investigações, reiterando sua disposição para prestar esclarecimentos adicionais.
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