Keiko Fujimori tomou posse como presidente do Peru nesta terça-feira (28) após vencer uma eleição acirrada, estabelecendo um marco inédito na América Latina. Ela superou Roberto Sánchez, um candidato com mais apoio no país, mas que perdeu após a contagem dos votos dos cidadãos residentes no exterior. Este é o primeiro caso em que o voto da diáspora teve um papel tão decisivo no resultado de uma eleição.
O impacto dos eleitores que vivem fora de seus países também foi notável na corrida presidencial da Colômbia, onde Abelardo de la Espriella venceu por uma margem de cerca de 250.000 votos. Contudo, sua vantagem sobre Iván Cepeda teria sido significativamente menor, abaixo de 75.000, se não fosse pelos votos do exterior.
Os resultados das últimas eleições têm chamado a atenção para o voto da diáspora, especialmente porque esses votos são contabilizados por último, o que faz parecer que eles desempenham um papel mais decisivo do que realmente têm. O cientista político Manuel Alcántara Sáez, diretor do Centro Internacional de Estudos Políticos e Sociais (CIEPS-AIP) no Panamá, comentou sobre essa dinâmica:
“Há uma armadilha perversa de calendário. Esses são os votos contados no final, então parece que são votos decisivos.”
A cientista política chilena Marcela Ríos Tobar, diretora para a América Latina e o Caribe do International IDEA, argumentou que se os resultados no Peru e na Colômbia não tivessem sido tão apertados, o voto da diáspora poderia ser considerado marginal.
“Não sei se podemos dizer que mudou ou que tem mais peso; não acho que possamos extrapolar esses resultados. Depende de outros fatores, como o tamanho da população da diáspora em cada país e qual percentual vota,”
Ela destacou que, embora o potencial do voto externo seja significativo em países com grandes diásporas, a participação tende a ser baixa. A abstenção no exterior é consideravelmente maior, com a participação não chegando a 13%, enquanto no país de origem essa cifra é de 61%.
No Peru, onde o voto é obrigatório mesmo para residentes no exterior e o cadastro é automático após uma mudança de endereço, mais de 300.000 pessoas votaram de fora do país, resultando em uma participação de 27% no segundo turno de junho, alinhada com a média histórica. No entanto, a situação é diferente no México, que possui a segunda maior diáspora do mundo, com mais de 13 milhões de pessoas, mas apenas cerca de 185.000 participaram das eleições de 2024.
A Guatemala, com uma diáspora de aproximadamente 3 milhões, implementou o voto fora do país pela primeira vez em 2019, mas apenas 1.443 pessoas votaram no exterior nas eleições de 2023, devido a problemas de documentação e registro. A diáspora venezuelana apresenta um potencial enorme, com quase 5 milhões de cidadãos aptos a votar, mas apenas cerca de 1% conseguiu votar em 2024, enfrentando dificuldades com o cadastro e prazos.
Os avanços nas leis eleitorais para permitir a participação do exterior têm sido uma tendência crescente na América Latina desde que a Colômbia inaugurou o voto externo em 1962 e o Peru em 1980. Muitos países buscam agora melhorar a legislação para facilitar essa participação, embora ainda haja um longo caminho a percorrer antes que votar no exterior se torne tão simples quanto votar dentro do país de origem.
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