A 17ª Conferência da ONU sobre desertificação terminou sem acordo para criar um regime global contra secas. Houve avanços pontuais, mas o financiamento anunciado ficou muito abaixo do necessário.
Depois de duas semanas, terminou a 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17), realizada em Ulaanbaatar, capital da Mongólia. Reunida em um cenário em que até 40% das terras do planeta estão degradadas, a conferência registrou avanços pontuais, mas não criou o regime global contra as secas e ficou aquém do financiamento necessário.
As principais expectativas não se concretizaram. A criação do regime global contra as secas foi adiada mais uma vez, e os valores anunciados ficaram muito abaixo do cálculo da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) para cumprir as metas até 2030.
Bloqueio dos Estados Unidos na abertura
Negociadores avaliaram que o resultado poderia ter sido pior, diante das condições geopolíticas e das tentativas de alguns países de enfraquecer instrumentos multilaterais.
No primeiro dia do evento, representantes dos Estados Unidos bloquearam um conjunto de itens da agenda: gênero, participação da sociedade civil e maior integração entre as três COPs ambientais, de desertificação, biodiversidade e clima. A ação foi inédita na história da conferência, já que os textos iniciais costumam partir de consensos anteriores. Todos os itens foram reintroduzidos no programa de trabalho da COP18, que será realizada no Egito em 2028.
Seca vira item permanente da agenda
O impasse principal girou em torno do regime global contra as secas. Os Estados Unidos defenderam suspender o debate, os europeus apoiaram um acordo com mecanismos voluntários e os países africanos, com apoio do Brasil, defenderam compromissos obrigatórios.
O acordo final estabeleceu que a seca passe a ser item permanente e independente da agenda das próximas conferências, o que evita novos bloqueios, e definiu que as discussões continuam no intervalo entre a COP17 e a COP18.
A secretária-executiva da UNCCD, Yasmine Fouad, avaliou o saldo da conferência em entrevista.
O mais importante é que o sistema multilateral mostra não estar tão fragmentado e disperso como todos dizem. Por isso, trabalhamos arduamente para que esta COP avançasse. Talvez não tenhamos tido o pacote completo, mas certamente mantemos a possibilidade de progresso até a próxima conferência
Resultados práticos anunciados
Entre os avanços, a Parceria Global de Resiliência à Seca de Riad, criada na COP16 em 2024, entrou em fase de implementação. A primeira assembleia discutiu um fundo coletivo para apoiar cerca de 70 países de baixa e média-baixa renda, com foco em capacitação, elaboração de programas e financiamento de medidas de resiliência.
A conferência também lançou o Mecanismo de Investimento para Resiliência à Seca (DRIF), primeira plataforma global de financiamento dedicada ao tema, criada pela UNCCD e por Luxemburgo com apoio da Aliança Internacional para a Resiliência à Seca (IDRA). A iniciativa pretende mobilizar até US$ 400 milhões em recursos públicos e privados.
Foi apresentada ainda a segunda fase do Observatório Internacional de Resiliência à Seca (IDRO), que lançou o primeiro Índice de Resiliência à Seca (DRI), ferramenta para avaliar capacidade de antecipação, preparação e adaptação a períodos de escassez de água.
Déficit de US$ 278 bilhões por ano
O desafio financeiro seguiu no centro do debate. Para cumprir os compromissos globais de restauração até 2030 seriam necessários cerca de US$ 355 bilhões por ano, segundo a UNCCD. O investimento anual atual é de aproximadamente US$ 77 bilhões, o que deixa um déficit de US$ 278 bilhões. O setor privado responde por cerca de 6% dos investimentos globais em recuperação de terras.
Durante a COP17, governos, bancos de desenvolvimento, fundos e empresas anunciaram uma carteira de US$ 1,3 bilhão para restauração de terras e resiliência às secas, envolvendo 23 países em cinco continentes. Desse total, US$ 644,5 milhões foram classificados como novos recursos e US$ 216,4 milhões estavam confirmados e em implementação.
A escolha da Mongólia como sede coincidiu com o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, declarado pela ONU para 2026. Os países reconheceram os pastores como responsáveis pela conservação de áreas e destacaram a importância da mobilidade transfronteiriça e dos conhecimentos tradicionais.
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