O estudo atualiza o déficit entre o que já é gasto e o que falta para proteger espécies de fauna e flora. Especialistas alertam que a crise ameaça serviços essenciais à vida humana e exige ação imediata.
O enfrentamento à crise da biodiversidade, que põe em risco diversas formas de vida no planeta, inclusive a dos seres humanos, é um desafio que exigirá dos países esforços financeiros de US$ 1,317 trilhão ao ano, além do que já é investido atualmente. O valor consta de um estudo que atualiza o panorama de investimentos necessários para proteger espécies da fauna e da flora e a distância entre o que é aplicado e o que é necessário — o chamado déficit — só aumentou nos últimos anos.
Segundo a análise das organizações responsáveis pelo levantamento, o déficit de financiamento para conter a crise da biodiversidade quase dobrou em seis anos, saindo de US$ 711 bilhões para os atuais US$ 1,317 trilhão. Os pesquisadores acompanham a evolução dos investimentos globais desde 2020 e confrontam esses números com a necessidade real de recursos para conservação.
O estudo destaca ainda que existem mecanismos já conhecidos que podem mobilizar recursos, mas que precisam ser implantados em escala e com rapidez compatíveis com a perda da natureza. Entre os exemplos citados estão o mercado de carbono e os Acordos de Financiamento de Projetos para Permanência (PFP), instrumentos que podem apoiar a criação de áreas de conservação por meio de fundos de transição.
“Este relatório comprova que essas estratégias funcionam, mas também deixa claro que precisamos implementá-las no ritmo e na escala exigidos pela perda da natureza”, afirma Carter Roberts.
O estudo chama a atenção também para políticas públicas que, na prática, financiam a destruição ambiental. De acordo com a análise, para cada US$ 1 investido na proteção da natureza, US$ 30 são destinados à sua destruição. Em razão disso, a reforma de subsídios prejudiciais aparece como uma medida capaz de liberar grande parte dos recursos necessários ao financiamento da conservação.
“Hoje, em um único mês, os governos gastam mais com subsídios prejudiciais à natureza do que investem em sua proteção ao longo de um ano inteiro”, afirma Henry M. Paulson Jr., presidente do Paulson Institute.
“Quando governos acertam os incentivos, o capital tende a acompanhá-los.”
A partir da análise dos números verificados ao longo dos seis anos, os pesquisadores elaboraram um roteiro com caminhos de ação que compõem o relatório atualizado. O documento aponta medidas para orientar governos, empresas e investidores sobre como ampliar a escala de financiamento e alinhar políticas econômicas à conservação.
O que fazer
- Reformar os subsídios prejudiciais: rever incentivos que estimulam práticas que degradam a natureza e realocar recursos para proteção ambiental.
- Ampliar iniciativas bem-sucedidas: expandir estratégias, operações cotidianas, concessões de crédito e investimentos que já demonstraram resultado na conservação.
- Reconhecer a natureza como ativo econômico: integrar a biodiversidade como componente essencial da economia, em vez de tratá-la como um recurso gratuito.
O relatório também aponta que bancos multilaterais de desenvolvimento e instituições financeiras de desenvolvimento devem usar seus balanços e instrumentos para mobilizar investimentos adicionais. Além disso, defende que a convergência das crises climática e da biodiversidade oriente planos de desenvolvimento e decisões de investimento de governos e do setor privado.
“Não estamos começando do zero. Partimos de uma década de evidências sobre o que funciona e este relatório é um chamado para avançarmos a partir delas”, conclui Jennifer Morris, CEO da The Nature Conservancy.
O documento, portanto, traz um alerta financeiro e político: sem reforma de políticas e mobilização de capital em maior escala, a lacuna entre o que se gasta e o que é necessário para proteger a natureza tende a permanecer, com impactos diretos sobre economias e comunidades globais.
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