Com algoritmos que priorizam engajamento, vídeos curtos ampliam alcance de fake news nas campanhas. A IA auxilia na edição e segmentação, transformando desinformação em produto viral.
Com um único clique, um conteúdo tem o poder de viralizar e influenciar pessoas conforme o alcance que conseguir nas redes sociais. Quando se trata de informação falsa, as consequências são imediatas. As chamadas fake news deixaram de ser um fenômeno isolado e passaram a integrar uma indústria mais ampla, voltada a ganhos financeiros, fraudes e golpes comerciais. No cenário eleitoral, essa indústria da desinformação se articula com objetivos políticos e, nos últimos anos, encontrou nos vídeos curtos um formato preferido para amplificar mensagens.
Um estudo do NetLab, laboratório de pesquisas sobre internet e redes sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mapeou o fluxo multiplataforma percorrido por um conteúdo enganoso até atingir o grande público. Pesquisadores analisaram 115,3 mil mensagens veiculadas em grupos públicos do WhatsApp e 180,9 mil em grupos e canais públicos do Telegram durante o primeiro turno das eleições de 2022 e identificaram etapas recorrentes no processo, de acordo com Debora S. Salles, integrante da pesquisa e coordenadora‑geral do NetLab.
Etapas do fluxo de desinformação
- “Laboratório” em espaços restritos: as narrativas costumam nascer em canais menores e grupos de mobilização dentro do Telegram e do WhatsApp. As plataformas funcionam como repositório de mídias e links e são usadas para mobilizar a militância e explorar a “rede de confiança” interpessoal entre amigos e familiares testando a aderência às narrativas.
- Plataformas abertas para amplificar: quando a narrativa ganha traço, ela é adaptada para redes como Instagram, TikTok, Kwai e Facebook. Nelas, entram em cena o motor de recomendação algorítmica e o uso de redes coordenadas de influenciadores, além do impulsionamento pago.
- Conteúdo audiovisual e mídia: o vídeo curto, formato mais “viralizável” nas redes sociais, torna-se o grande catalisador do alcance da desinformação. Quando o assunto chega aos grandes veículos de imprensa ou à TV, a narrativa atinge seu ponto máximo de validação e alcance massivo.
Em entrevista, Debora S. Salles ressalta que essa “máquina de desinformação” se beneficia da própria arquitetura das redes sociais, que cria um ambiente informacional bastante poluído. Segundo a pesquisadora, a retenção do usuário vem antes da qualidade da informação.
“A lógica da economia da atenção é de que quanto mais tempo o usuário fica na rede, mais publicidade ele consome e mais dados ele gera. E é assim que a plataforma vende. Num contexto eleitoral, muitas vezes isso significa indicar conteúdos absurdos, abusivos, violentos ou puramente polarizadores, porque as plataformas sabem que isso vai engajar”.
Com a popularização das ferramentas de inteligência artificial generativa, a produção de vídeos sintéticos explodiu e trouxe novos desafios. Um relatório da Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) mostrou que o Brasil concentrou 39% dos casos de deepfakes registrados na América Latina em 2025 e teve um aumento de 126% nos ataques que utilizam imagens, vozes e identidades falsas.
Além das falsificações altamente realistas produzidas por IA, há os chamados shallowfakes — manipulações mais simples, porém amplamente utilizadas em anúncios fraudulentos. Para a pesquisadora, medidas técnicas como marcas d’água que identifiquem conteúdos gerados por IA são importantes, mas insuficientes diante da complexidade do problema, que exige regulamentação e maior transparência.
“Hoje em dia, enquanto pesquisador, a gente tem muita dificuldade de acessar dados. É muito difícil entender efetivamente o quanto que aquilo alcançou, o que que foi feito, se a plataforma tirou do ar, reduziu o alcance. A gente não tem esse tipo de informação. E eu acho que com a publicidade, essa demanda é ainda maior, porque ela é microssegmentada. […] Nas redes sociais, cada usuário vê um anúncio diferente. Então, a gente precisa de um repositório que seja passível de fiscalização”.
Para enfrentar a desinformação, a pesquisadora aponta a necessidade de regras claras para as grandes plataformas: transparência algorítmica, repositórios públicos de anúncios e responsabilização das plataformas, medidas que, segundo ela, não equivalem a proibir a liberdade de expressão, mas a estabelecer padrões públicos de segurança. O usuário também tem papel central: atenção crítica a ofertas e conteúdos duvidosos e checagem de informações são apontadas como medidas essenciais no período eleitoral.
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