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Tradução equivocada em 1877 criou o mito dos ‘marcianos’

Um erro de tradução em observações de 1877 transformou traços em Marte na ideia de canais e alimentou o mito dos 'marcianos'.

24/10/2026 · 14h15
Tradução equivocada em 1877 criou o mito dos ‘marcianos’

Schiaparelli registrou linhas em Marte e as chamou de 'canali'. A interpretação de 'canali' como 'canais' levou a relatos literais que a imprensa transformou em seres verdes de olhos grandes.

Quando o tema é vida fora da Terra, a imagem de seres verdes e olhos grandes costuma vir à cabeça. A origem dessa ideia associada a Marte remonta ao século 19, quando observações astronômicas foram interpretadas de maneira exuberante e, depois, amplificadas pela imprensa e pela cultura popular.

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Em 1877, o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli começou a mapear a superfície de Marte e registrou padrões que lhe pareceram contornos geométricos, com linhas longas e retas. Sem ter certeza do que via, Schiaparelli usou o termo italiano canali para descrever essas formações.

canali

Na tradução para o inglês, canali virou channels — canais — e a palavra acabou carregando um sentido hidráulico que não estava necessariamente presente na observação original. Quinze anos depois, o norte-americano Percival Lowell chegou a impressões semelhantes a partir de suas próprias observações.

Lowell, apesar de ser considerado amador no meio acadêmico, recorreu a instrumentos e ao contato com astrônomos de instituições como Harvard para aprofundar seus estudos. Em 1895, ele concluiu que as linhas identificadas em Marte correspondiam a um complexo sistema de irrigação, capaz até de abastecer oásis que manteriam plantações e sustentariam seres inteligentes no planeta.

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As anotações de Schiaparelli por si só não constituíram prova de vida inteligente em Marte, mas a interpretação de Lowell e a repercussão midiática criaram um ambiente favorável ao surgimento do termo marcianos e ao seu uso na publicidade e na ficção. Obras como a novela Guerra dos Mundos e reportagens da época reforçaram a imagem de Marte como um mundo povoado por seres desconhecidos.

Guerra dos Mundos

Com o tempo, no entanto, as hipóteses de canais artificiais se mostraram infundadas. Trabalhos posteriores de Lowell e de outros pesquisadores não resistiram à evolução técnica e metodológica da astronomia. A ciência seguiu seu caminho, nascendo e consolidando campos como a astrobiologia, que hoje estuda a origem, a evolução e a distribuição da vida no universo com métodos e critérios mais rigorosos.

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Cientistas de agências espaciais, incluindo a NASA, continuam a investigar Marte, mas a expectativa atual não é encontrar formas de vida ativas no planeta. O foco é buscar evidências de condições passadas que possam ter permitido a existência de seres microbianos ou sinais indiretos de vida em eras em que Marte foi mais quente e possivelmente abrigou água líquida.

Ao leitor sergipano e ao público em geral, a história serve como lembrete de que interpretações iniciais, traduções e cobertura midiática podem moldar mitos duradouros — mesmo quando a base científica é incerta ou limitada.

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Schiaparelli registrou linhas em Marte e as chamou de 'canali'. A interpretação de 'canali' como 'canais' levou a relatos literais que a imprensa transformou em seres verdes de olhos grandes.

Quando o tema é vida fora da Terra, a imagem de seres verdes e olhos grandes costuma vir à cabeça. A origem dessa ideia associada a Marte remonta ao século 19, quando observações astronômicas foram interpretadas de maneira exuberante e, depois, amplificadas pela imprensa e pela cultura popular.

Em 1877, o astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli começou a mapear a superfície de Marte e registrou padrões que lhe pareceram contornos geométricos, com linhas longas e retas. Sem ter certeza do que via, Schiaparelli usou o termo italiano canali para descrever essas formações.

canali

Na tradução para o inglês, canali virou channels — canais — e a palavra acabou carregando um sentido hidráulico que não estava necessariamente presente na observação original. Quinze anos depois, o norte-americano Percival Lowell chegou a impressões semelhantes a partir de suas próprias observações.

Lowell, apesar de ser considerado amador no meio acadêmico, recorreu a instrumentos e ao contato com astrônomos de instituições como Harvard para aprofundar seus estudos. Em 1895, ele concluiu que as linhas identificadas em Marte correspondiam a um complexo sistema de irrigação, capaz até de abastecer oásis que manteriam plantações e sustentariam seres inteligentes no planeta.

As anotações de Schiaparelli por si só não constituíram prova de vida inteligente em Marte, mas a interpretação de Lowell e a repercussão midiática criaram um ambiente favorável ao surgimento do termo marcianos e ao seu uso na publicidade e na ficção. Obras como a novela Guerra dos Mundos e reportagens da época reforçaram a imagem de Marte como um mundo povoado por seres desconhecidos.

Guerra dos Mundos

Com o tempo, no entanto, as hipóteses de canais artificiais se mostraram infundadas. Trabalhos posteriores de Lowell e de outros pesquisadores não resistiram à evolução técnica e metodológica da astronomia. A ciência seguiu seu caminho, nascendo e consolidando campos como a astrobiologia, que hoje estuda a origem, a evolução e a distribuição da vida no universo com métodos e critérios mais rigorosos.

Cientistas de agências espaciais, incluindo a NASA, continuam a investigar Marte, mas a expectativa atual não é encontrar formas de vida ativas no planeta. O foco é buscar evidências de condições passadas que possam ter permitido a existência de seres microbianos ou sinais indiretos de vida em eras em que Marte foi mais quente e possivelmente abrigou água líquida.

Ao leitor sergipano e ao público em geral, a história serve como lembrete de que interpretações iniciais, traduções e cobertura midiática podem moldar mitos duradouros — mesmo quando a base científica é incerta ou limitada.

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