Em Abrolhos, centenas de jubartes atraem turistas e pesquisadores em saídas de catamarã desde Caravelas. A travessia de cinco horas vira expedição de observação durante a migração anual.
O catamarã Pegasus I deixa o cais no centro da cidade de Caravelas (BA) ao nascer do sol, com destino ao arquipélago dos Abrolhos, um dos principais redutos de biodiversidade marinha do país. A viagem tem duração prevista de cinco horas, mas costuma se prolongar: os passageiros não estão apenas navegando, e sim “baleiando”, seguindo o rastro das baleias‑jubarte que todos os anos migram da Antártica para Abrolhos para acasalar e parir.
Cerca de duas horas após a partida, a comitiva se ajeita nos pontos de observação do catamarã e apruma o olhar. O borrifo é o primeiro sinal da presença de uma baleia e passa a determinar a direção do barco. Ao contrário do que muitos imaginam, não se trata de um jato de água: é a condensação do vapor da respiração quente do animal ao encontrar o ar mais frio da superfície.
Quando o borrifo aparece no horizonte, o primeiro observador alerta o restante do grupo e todos acompanham atentos, à espera do dorso ou de um salto. A embarcação segue no encalço do animal, e as máquinas fotográficas se preparam para registrar a cauda: a marca caudal é única em cada jubarte e funciona como impressão digital.
O fotógrafo de vida selvagem Enrico Marcovaldi registra as baleias em Abrolhos há quase 40 anos e integra expedições científicas do Instituto Baleia Jubarte, que monitora a passagem desses animais pelo Brasil, produz estimativas populacionais e pesquisa hábitos e comportamentos. Nas saídas, todos os animais avistados são catalogados, e amostras de pele e gordura são coletadas por biópsia com uma pequena flecha lançada por balestra — procedimento descrito como similar, em proporção humana, a uma lanceta para exame de glicose, levando em conta que uma jubarte adulta mede mais de 10 metros e pesa cerca de 30 toneladas.
Isso é que é bonito!
O registro fotográfico permitiu identificar milhares de indivíduos. Hoje, a principal estimativa populacional do instituto é feita por sobrevoo do litoral entre São Paulo e Rio Grande do Norte. O recorde de mais de 35 mil baleias foi contado na última estimativa de 2022; o cálculo deste ano ainda está sendo feito, mas deve ficar um pouco abaixo.
Na primeira estimativa populacional nossa, que foi no princípio da década de 90, tinha de 1,5 mil a 2 mil baleias. Hoje estamos com mais de 35 mil. O sentimento é de dever cumprido. A população se recuperou de verdade
O Projeto Baleia Jubarte foi criado após a descoberta, durante atividades para implantação do Parque Marinho de Abrolhos, de uma pequena população sobrevivente. A caça às jubartes, intensiva desde o período colonial para extração de gordura usada como combustível, foi proibida em 1987, o que levou a espécie à lista de animais em risco de extinção. Em 2014, a espécie saiu dessa lista.
Harmonizar a atividade humana com a conservação das baleias‑jubarte e outros cetáceos
Esse entendimento sobre conservação e o apoio recebido ao longo das décadas permitiram ampliar o trabalho pelo litoral brasileiro, integrando registros fotográficos a uma plataforma colaborativa que usa inteligência artificial para identificar marcas caudais e cruzar dados com pesquisadores de outros países. Apesar da recuperação populacional, os especialistas alertam para desafios atuais, como poluição por microplásticos e as mudanças climáticas, que afetam a disponibilidade de alimento e, consequentemente, o ciclo de vida das baleias.
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