Iniciativa Farmácia Viva na Comunidade promoveu oficinas, implantou horta coletiva e desenvolveu ferramenta digital para orientar o uso de ervas medicinais
O costume de recorrer às plantas medicinais para aliviar desconfortos faz parte da cultura de muitas famílias brasileiras. Receitas de chás e outras preparações caseiras são transmitidas entre gerações, preservando conhecimentos construídos pela experiência popular. Apesar dessa tradição, a escolha inadequada de uma espécie, erros no preparo ou o uso de quantidades incorretas podem colocar a saúde em risco.
Com a proposta de aproximar esse conhecimento tradicional da ciência e dos recursos tecnológicos, a Universidade Tiradentes (Unit) criou o projeto de extensão Farmácia Viva na Comunidade. Ligada ao Programa Conecta Farolândia, a iniciativa levou estudantes e professores até os moradores do Loteamento Senhor do Bonfim, em Aracaju (SE), promovendo ações que relacionam saúde, sustentabilidade e fortalecimento da comunidade.
Diálogo Integrado
Coordenado sob a preceptoria do professor e doutor Leonardo Sant’Anna Santos, o projeto surgiu a partir de uma necessidade apresentada pelos próprios moradores. A demanda foi acolhida pela Coordenação do Curso de Farmácia, que mobilizou aproximadamente 40 estudantes de Farmácia e Análise e Desenvolvimento de Sistemas (ADS).
“A principal necessidade identificada foi a carência de informações seguras e acessíveis sobre o uso correto de plantas medicinais, bem como a ausência de espaços comunitários voltados ao cultivo, preservação e compartilhamento desses conhecimentos. Observou-se também a necessidade de fortalecer práticas de promoção da saúde e de educação em saúde por meio de ações que valorizassem os recursos disponíveis na própria comunidade”, contextualiza o professor Leonardo Sant’Anna.
A participação de diferentes áreas também contribuiu para ampliar o alcance das atividades, segundo o preceptor. “A integração permitiu uma abordagem interdisciplinar mais completa. O curso de Farmácia contribuiu com os conhecimentos científicos; o curso de ADS auxiliou no desenvolvimento de soluções digitais; e o Design contribuiu para a elaboração de materiais educativos acessíveis. Isso demonstrou que o conhecimento científico e os saberes populares podem ser complementares”, explica.
Aprendizado na Prática
O trabalho começou com uma visita à comunidade para conhecer as condições locais e entender como os moradores utilizavam as plantas medicinais. Nas três semanas seguintes, foram promovidas oficinas que incluíram o reconhecimento botânico das espécies e o preparo de produtos, como o óleo de camomila obtido por maceração, com orientações sobre os cuidados necessários durante o processo.
As atividades também abordaram formas acessíveis de cultivar plantas em casa e adotar práticas sustentáveis. Entre as experiências, os participantes aprenderam a produzir vasos autoirrigáveis utilizando garrafas PET reutilizadas, uma alternativa que favorece o reaproveitamento de materiais, a economia de água e o plantio doméstico.
Adilma Gomes Santos, moradora do loteamento e diretora da Associação de Moradores, conta que o uso das ervas já fazia parte do cotidiano local antes da chegada da equipe universitária. “Antes do projeto, os moradores já faziam uso das plantas medicinais, mas de forma bem tradicional, um conhecimento passado de avós para netos. Pegavam as plantas no quintal ou no mato, sem muito cuidado com o preparo correto. Com as oficinas, aprendemos a identificar cada planta corretamente, a dosagem e o tempo de infusão. Aprendemos que planta medicinal também precisa de cuidado”, pontua.
Na avaliação de Adilma, a iniciativa também contribuiu para o bem-estar dos moradores e para a valorização da cultura comunitária. “A Farmácia Viva traz saúde natural e de graça para quem não tem condição de comprar remédio na farmácia. Ajuda a diminuir o uso de remédio industrializado, gera economia para as famílias e promove o autocuidado. O principal impacto foi o resgate da nossa cultura e a união da comunidade”, ressalta a moradora.
Ponte com Tecnologia
A iniciativa também utilizou a tecnologia para ampliar o acesso às informações compartilhadas durante as oficinas. Estudantes de Análise e Desenvolvimento de Sistemas desenvolveram um portal educativo e interativo com conteúdos sobre plantas medicinais, orientações de preparo, dosagens e um recurso de geolocalização.
Guilherme Santos, estudante do 7º período de Sistemas de Informação, explica que participar do projeto fez com que a turma repensasse a maneira de desenvolver soluções tecnológicas para atender às necessidades das pessoas. “A gente precisou pegar um conhecimento sobre plantas medicinais e pensar em como transformar aquilo em algo que qualquer pessoa pudesse acessar e entender. O maior desafio foi entender que desenvolver uma plataforma para a comunidade é diferente de desenvolver algo apenas pensando na tecnologia”, conta.
O contato com os moradores também ajudou Guilherme a compreender como a inovação pode contribuir para valorizar conhecimentos já existentes. “O contato com a comunidade mostrou que existe muito conhecimento que já faz parte da cultura local. A plataforma não veio para substituir esse conhecimento, mas para valorizá-lo e organizá-lo. Aprendemos que inovar não é necessariamente criar algo extremamente complexo, mas encontrar uma forma melhor de fazer o conhecimento chegar até as pessoas”, ressalta Guilherme.
Legado Viva
Entre os resultados do projeto está a criação de uma Horta Comunitária de Plantas Medicinais na sede da Associação de Moradores. O espaço foi implantado coletivamente, com mudas doadas pelo Parque da Sementeira, e passou a funcionar como um ambiente permanente de cultivo e aprendizagem. Além da horta compartilhada, os participantes receberam mudas para iniciar ou ampliar o plantio em suas próprias residências.
Com a horta e o portal digital plantaviva.vercel.app, o projeto Farmácia Viva na Comunidade fortalece a aproximação entre a universidade e os moradores. A experiência também expressa o compromisso da Universidade Tiradentes com uma formação acadêmica conectada às necessidades sociais, articulando educação, promoção da saúde e sustentabilidade.
Por: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit
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