A dependência já afeta milhões e coloca em xeque a saúde pública e o futebol.
A recente onda de rumores sobre o jornalista esportivo Leonardo Bertozzi, que estaria supostamente internado em uma clínica de reabilitação após perdas milionárias com apostas online, trouxe à tona um debate urgente sobre um crescente problema de saúde pública no Brasil. Embora a situação do comentarista não seja confirmada, ela espelha uma realidade alarmante. Dados da Fiocruz já estimam que mais de 3,5 milhões de brasileiros apresentam sintomas de vício em jogos. A gravidade é traduzida nos números do Sistema Único de Saúde (SUS), que apenas no primeiro trimestre de 2025, registrou mais de 1.300 atendimentos de pessoas com dependência em jogos.
A compulsão por apostas tem um rosto e uma história, como a de Manoel Vicente Vieira, de 69 anos. Viciado desde os 17, ele viu sua vida financeira desmoronar em 2024 ao contrair um empréstimo de R$ 19 mil para alimentar o jogo, perdendo o valor e todo o seu salário. Sua jornada, que começou no baralho e passou pelo jogo do bicho, quase migrou para as “bets” online, das quais só se afastou por não saber usar a tecnologia. Sem conseguir parar por conta própria e com as finanças em caos, Vieira buscou refúgio no álcool e no cigarro, ilustrando como o vício em jogos frequentemente se conecta a outras dependências e agrava a situação de vulnerabilidade do indivíduo.
Em contrapartida ao drama humano, o mercado de apostas se tornou um pilar econômico para o esporte mais popular do país. Segundo o educador financeiro Davi Ramos, 90% dos clubes da Série A do Campeonato Brasileiro são patrocinados por essas casas, injetando cerca de R$ 630 milhões anuais, o que corresponde a 13% do faturamento total das equipes. Ramos adverte para o delicado equilíbrio da situação, afirmando que uma regulamentação excessivamente severa, embora necessária para a saúde pública, poderia gerar um “colapso financeiro” no futebol brasileiro, que se tornou dependente dessa nova e massiva fonte de receita.
Futebol em alta
Do ponto de vista econômico, o educador financeiro e sócio fundador da Vante Invest, Davi Ramos, pontua que parte da economia brasileira se adaptou ao investimento recebido por casas de apostas, abrindo uma nova fonte de receita. Hoje, 90% dos clubes de futebol da Série A do Campeonato Brasileiro são patrocinados por casas de apostas. Isto representa cerca de R$ 630 milhões ou 13% do faturamento das agremiações.
Neste cenário, ele adverte que regulamentações em excesso podem minar os investimentos no esporte mais consumido no país. “O mercado de bets revolucionou o financiamento do futebol brasileiro. Se forem impostas restrições severas, há grande risco de colapso financeiro”.
Regulamentação: Senado restringe propaganda
Na esteira de se propor uma regulamentação, o Senado Federal aprovou, em 28 de maio, um projeto de lei que pretende restringir propagandas de casas de apostas no Brasil. De acordo com o texto, atletas em atividade, atores, comunicadores e influenciadores ficam impedidos de fazer publicidade para casas de apostas.
A norma determina, ainda, a veiculação de frases sobre os malefícios do vício em apostas, além de estabelecer horário em que as peças publicitárias podem ser veiculadas. O PL 2.985/2023, agora, precisa ser ratificado pelos deputados para valer como lei.
No dia 12 de junho, contudo, a própria Casa rejeitou, por quatro votos a três, o relatório da senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS), que previa o indiciamento de 16 pessoas, incluindo influenciadores digitais e empresários do ramo.
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