A modernidade nasceu sob a promessa da emancipação humana. Ao deslocar o centro da explicação do mundo da vontade divina para a razão, o Iluminismo europeu rompeu com a ordem transcendental que sustentava as sociedades agrárias. Durante séculos, a Igreja organizou não apenas a fé, mas também os sentidos atribuídos à vida, à morte, à culpa, à pobreza, à obediência e ao sofrimento.
Nas sociedades agrárias, marcadas pela tradição, hierarquia e religiosidade, a dor humana podia ser interpretada como provação, destino, pecado, penitência ou promessa de salvação. A razão moderna, ao superar progressivamente o poder transcendente da Igreja, abriu caminho para a ciência, para o Estado secular, para o indivíduo autônomo e para a ideia de progresso. Contudo, essa libertação teve um reverso, ao desencantar o mundo, a modernidade retirou do sofrimento parte de sua antiga moldura simbólica.
A dor deixou de pertencer apenas ao campo da alma, do mistério e da salvação, para ser incorporada ao campo da norma, da ciência, da produtividade e da adaptação social. No século XX, Sigmund Freud percebeu que a civilização moderna não havia eliminado o sofrimento humano, mas sim deslocado suas formas. O mal-estar passou a expressar as tensões próprias da vida civilizada, como a repressão dos desejos, disciplina do trabalho, culpa, competição, solidão e conflito permanente entre liberdade individual e exigências coletivas.
O século XXI radicalizou esse processo, transformando o sofrimento humano em uma das mais lucrativas fronteiras de acumulação do capitalismo contemporâneo. Nunca se falou tanto em saúde mental, com diagnósticos crescentes e um aumento no consumo de psicofármacos. Paradoxalmente, também nunca tantas pessoas declararam sofrer de ansiedade, depressão, esgotamento emocional e dificuldades de adaptação à vida cotidiana.
A expansão da indústria farmacêutica ocorre paralelamente ao crescimento dos diagnósticos relacionados à saúde mental. O que antes era compreendido como parte das tensões da vida social e das desigualdades econômicas passou a ser interpretado como problema individual, passível de tratamento medicamentoso. O diagnóstico, que deveria ser um instrumento médico, transforma-se em uma identidade social, organizando formas de pertencimento e reconhecimento.
A transformação do diagnóstico em identidade revela uma mudança profunda na forma de governança das populações no território.
A indústria farmacêutica, nesse contexto, ocupa uma posição estratégica, onde o sofrimento se torna mercado. As plataformas digitais aprofundam a individualização da experiência humana, e a saúde mental torna-se objeto de intervenção médica, exploração econômica e vigilância tecnológica. Assim, indivíduos diagnosticados e medicados convivem com condições estruturais que permanecem intocadas.
A grande questão contemporânea é: estamos diante de uma crise da saúde mental ou de uma crise da própria organização social, econômica e política?
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