No terceiro álbum, lançado em agosto, Amanda mistura humor e referências digitais para criticar a obsessão por visibilidade, a ascensão da IA e a automatização da vida. As faixas viram comentários sociais afiados.
Em seu terceiro álbum, Era Uma Vez o Amanhã, lançado em agosto, Amanda Magalhães usa o humor e referências da cultura digital para discutir temas como a obsessão por visibilidade, o avanço da inteligência artificial, a automatização da vida e as promessas de sucesso do capitalismo. A cantora e compositora transforma ironia e a circulação acelerada de imagens em matéria-prima para composições que se aproximam mais do comentário social do que da simples divulgação.
O álbum extrapola as letras e aparece também na forma como Amanda se relaciona com o universo online. Em vez de tratar as redes apenas como vitrines, ela observa códigos, comportamentos e contradições desses ambientes. Entre os recursos empregados pela artista estão os chamados “memixes” — remixes musicais construídos a partir de memes e vídeos virais — que ajudaram a dar visibilidade ao trabalho no Instagram e passam a integrar o repertório do disco.
No clipe mais recente, da faixa “Eu Quero Likes”, a busca por aprovação e visibilidade ganha contornos críticos, mas a análise da cantora não se limita a apontar excessos. Amanda reconhece que artistas dependem das mesmas plataformas para alcançar o público, e é nessa tensão entre crítica e participação que se encontra parte da matéria-prima de Era Uma Vez o Amanhã.
“Sim, até de maneiras que me surpreenderam um pouco, confesso! E está sendo bastante positiva a repercussão. As mensagens que eu recebo, os comentários que vejo nas redes sociais me mostram que eu não estava louca, que existem muitos de nós com raiva, querendo reivindicar, querendo pensar juntos como chegamos até aqui e de que maneiras conseguimos mudar o nosso futuro.”
Ao explicar a escolha de um sample usado no refrão, Amanda disse que o trecho vem de um vídeo encontrado por ela. A artista deixou claro que não vai revelar a identidade da criança presente no material: trata-se de uma fala sampleada que, segundo ela, exemplifica a espetacularização precoce da vida e a busca por validação externa.
“Eu não quis e não vou revelar a identidade porque não quero expor essa criança… É uma fala sampleada de uma criança.”
Sobre a convivência com as redes sociais, Amanda afirmou que não há escolha fácil: as plataformas são ao mesmo tempo espaços de crítica e ferramentas necessárias para divulgar o trabalho. Ela afirmou que suas críticas nascem de quem vive esses territórios e que as redes, apesar das limitações, também permitem articulações e vozes que antes não eram ouvidas.
“Eu não tenho escolha! … Se é isso que está dado para mim, é o que está apresentado e é com isso que vou jogar, seja para levar mensagens que julgo importantes, seja para me colocar como profissional diante do trabalho que faço.”
Com linguagem que mistura teatralidade, humor e investigação dos códigos digitais, Amanda Magalhães propõe em Era Uma Vez o Amanhã uma escuta crítica do presente e a possibilidade de imaginar outros futuros, provocando reflexão sobre como vivemos, nos mostramos e nos organizamos no espaço virtual e fora dele.
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