A entidade atribui ao governo marroquino o fluxo de mais de 50 mil migrantes em direção aos enclaves espanhóis. Quase 100 pessoas morreram, e a organização liga o êxodo à falta de perspectivas e ao desespero juvenil.
A Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) responsabilizou o Estado de Marrocos pelo movimento migratório de mais de 50 mil pessoas em direção a Ceuta e Melilla, enclaves espanhóis no continente africano. De acordo com dados do governo de Ceuta, quase 100 pessoas perderam a vida durante essa jornada.
A AMDH destacou que a falta de perspectivas para os cidadãos e o aumento da frustração, especialmente entre os jovens, transformaram-se em um sentimento coletivo. Esse desespero é visto como uma forma de expressão da insatisfação popular em relação ao fracasso das políticas estatais.
A falta de perspectivas para os cidadãos e o agravamento dos sentimentos de frustração e desespero, especialmente entre os jovens, deixaram de ser apenas sentimentos individuais e se tornaram a identidade de toda uma geração.
A organização criticou a desigualdade social e a apropriação dos recursos do país por um pequeno grupo, apontando para uma economia rentista, corrupção, autoritarismo e tirania. Segundo a AMDH, essa situação é uma clara manifestação de uma crise estrutural que se arrasta por décadas.
Além disso, a associação condenou o uso da crise migratória como uma ferramenta de pressão política nas relações com a Espanha e a Europa, afirmando que as pessoas não deveriam ser utilizadas em jogos políticos que coloquem em risco seus direitos fundamentais.
Especialistas apresentam opiniões divergentes sobre a conivência do governo de Marrocos na crise de imigração em Ceuta, sugerindo que essa situação poderia ser explorada para obter vantagens políticas junto aos países europeus. A AMDH também criticou o silêncio das instituições estatais marroquinas, o que teria contribuído para um estado de mobilização em diversas cidades do país.
Isso fortaleceu a criação de um estado de mobilização abrangente na maioria das cidades e regiões.
A escalada retórica na Europa e nos Estados Unidos também foi alvo de críticas, com a AMDH mencionando que a retórica hostil contra imigrantes, vinda de grupos de direita, retrata esses indivíduos como uma ameaça às sociedades ocidentais.
Marrocos, uma monarquia constitucional e parlamentar, tem sido marcada por uma combinação de instituições democráticas e controle forte da dinastia alauíta, liderada pelo rei Mohammed VI, que recentemente completou 27 anos no trono. O rei é a figura central na política marroquina e comandante das forças armadas.
O professor de relações internacionais Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC, destacou que o êxodo de jovens revela o fracasso do projeto de desenvolvimento nacional nos últimos anos. Ele observou que, embora o país tenha realizado avanços em infraestrutura e projetos liderados pelo rei, a maioria da população jovem não se beneficiou dessas mudanças.
O que tenho visto aqui na rua é o mal-estar em relação ao aumento do custo de vida, falta de oportunidades e o difícil acesso à saúde pública.
Durante a celebração de seu 27º aniversário no trono, Mohammed VI publicou um texto exaltando as conquistas do país, mencionando o crescimento do PIB e a posição de Marrocos como principal exportador automotivo da África.
Em 2023, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) de Marrocos foi de 0,71, colocando o país na categoria de alto desenvolvimento humano, ocupando a 120ª posição entre 193 países, segundo dados da ONU. No contexto africano, Marrocos possui o 10º maior IDH, mas ainda enfrenta altos índices de desemprego entre os jovens, que alcançavam 24,9% em 2022.
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