Organização diz que vai formalizar queixa internacional após o presidente insultar e nomear repórteres. Milei chegou a afirmar que 'deveriam queimar na fogueira' em referência a jornalistas investigativos.
A Anistia Internacional informou que vai denunciar o presidente argentino, Javier Milei, à Organização das Nações Unidas (ONU) e à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) por hostilidade contra jornalistas. A medida ocorre depois de ataques públicos do mandatário dirigidos a profissionais da imprensa.
Na última semana, Milei xingou jornalistas que fizeram reportagens investigativas sobre ele e afirmou que deveriam “queimar na fogueira”. Em discurso e em publicações nas redes sociais, o presidente citou nominalmente repórteres e os desqualificou.
“Empacotados, corruptos, mercenários da mentira e fabricantes seriais de operações”.
“Os que têm que queimar na fogueira são os filhos da p*”.
Na rede social X, o mandatário escreveu que foi alvo de “tremenda operação política e midiática cujo único objetivo era prejudicar a presidência para fins políticos de conspiração golpista” e classificou os jornalistas como “subornados e mercenários da mentira”.
Segundo a Anistia Internacional, as declarações violentas aprofundam o assédio contra a imprensa, colocam em risco quem informa e deterioram as garantias do debate democrático. A organização disse ainda que levará os fatos às instâncias internacionais no âmbito de seu monitoramento sobre a liberdade de expressão na Argentina.
“A organização manifesta profunda preocupação com a escalada de hostilidade contra a imprensa e levará esses fatos às instâncias internacionais, no âmbito de seu trabalho de monitoramento e denúncia da deterioração da liberdade de expressão na Argentina”.
Sobre a referência a “queimar na fogueira”, a Anistia apontou que a expressão evoca violência extrema e constitui uma “escalada grave e inadmissível na hostilidade presidencial contra a imprensa”. A ONG destacou que a retórica não se limita a questionar a cobertura jornalística, mas individualiza e estigmatiza profissionais.
“O cargo que ocupa exige uma responsabilidade reforçada: deve garantir que a imprensa possa investigar e informar com liberdade e segurança. O assédio por parte do poder deteriora as condições do debate democrático e afeta o direito de toda a sociedade de estar informada”.
A declaração acima foi feita pela diretora-executiva da Anistia na Argentina, Mariela Belski, que ressaltou o risco de um clima de intimidação capaz de abrir caminho para novas agressões quando um presidente aponta publicamente jornalistas e usa imagens de violência contra quem questiona sua gestão.
Para fundamentar a acusação de deterioração contínua das condições de trabalho jornalístico, a ONG citou levantamento do Fórum de Jornalismo Argentino. O monitoramento registrou 278 casos de ataques contra jornalistas em 2025, 55% a mais que em 2024 e o maior número desde 2008. Desses episódios, 119 tiveram a identificação do presidente Javier Milei como autor individual.
O levantamento contabilizou ainda 139 casos de discursos estigmatizantes, 20 ações judiciais contra jornalistas e 28 restrições de acesso à informação. A Anistia advertiu que a repetição dessas práticas pode gerar efeito silenciador além das pessoas atacadas, desestimulando investigações, favorecendo a autocensura e empobrecendo a circulação de informações de interesse público.
Em novembro de 2025, organizações de direitos humanos, entidades jornalísticas e sindicatos participaram de audiência sobre liberdade de expressão na CIDH, quando foram denunciados aumento de agressões, violência on-line, assédio judicial e ataques durante cobertura de protestos. Na ocasião, a CIDH solicitou informações ao Estado argentino e manifestou interesse em realizar visita ao país.
A jornalista Carla Gaudensi, secretária da Federação Argentina de Trabalhadores de Imprensa, informou que a entidade se juntará à Anistia Internacional na representação perante instâncias internacionais.
O Sindicato de Imprensa de Buenos Aires emitiu nota de repúdio ao presidente, afirmando que o mandatário “voltou a ultrapassar um limite gravíssimo” e que a incitação a “queimar na fogueira” deve provocar reação imediata de todo o espectro político e midiático para frear os ataques contra a profissão.
“A incitação a ‘queimar na fogueira’ um grupo de jornalistas deve provocar uma reação imediata de todo o espectro político e midiático para frear os ataques contra nossa profissão. Não haverá espaço para lamentações se a violência promovida pelo presidente acabar se transformando em fatos concretos”.
No último dia 12, o jornalista brasileiro Rogério Tomaz Jr., conhecido por críticas ao governo Milei, foi impedido de entrar na Argentina, ao desembarcar.
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