Levantamento do Banco Central revela volume bilionário de recursos públicos no campo. BNDES e fundos regionais, como o FNE, lideram os aportes no período.
O crédito rural brasileiro recebeu um total de R$ 608 bilhões em recursos públicos desde 2013, conforme levantamento realizado a partir de dados do Banco Central. Os principais financiadores foram o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e os Fundos Constitucionais de Financiamento, que incluem o FNE (Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste), o FCO (Fundo Constitucional de Financiamento do Centro-Oeste) e o FNO (Fundo Constitucional de Financiamento do Norte).
Além dos recursos públicos, outros R$ 678 bilhões foram contratados por meio de fontes de capital misto, que combinam financiamento privado com algum tipo de subsídio ou incentivo econômico. Um exemplo disso são as operações com recursos da LCA (Letra de Crédito do Agronegócio), que oferecem condições favoráveis e juros controlados com suporte da União.
Desde 2013, os recursos públicos representaram cerca de 19% do total de crédito rural contratado. Essa participação variou ao longo dos anos, alcançando 16,5% em 2023 e 21,4% em 2025. Em números absolutos, o volume de recursos públicos aumentou de R$ 28,5 bilhões em 2013 para R$ 76,9 bilhões em 2025, resultando em um crescimento de 170% no período. No ano de 2026, até o mês de maio, foram disponibilizados R$ 22,4 bilhões, correspondendo a 19% do total contratado até então.
O crédito rural é vital para o financiamento das atividades agropecuárias no Brasil, sendo destinado a produtores, cooperativas e empresas do setor. Os recursos são utilizados para a produção da safra, aquisição de máquinas e investimentos em infraestrutura, transporte e comercialização de produtos rurais.
As operações de crédito rural são realizadas por diferentes fontes, que incluem recursos públicos e fundos, como BNDES, Tesouro, Funcafé e Fundos Constitucionais, além de recursos privados provenientes de poupança rural e LCA. Também existem fontes intermediárias, onde a captação é privada, mas com incentivos públicos.
Apesar das facilidades e subsídios, muitos produtores rurais enfrentam dificuldades para cumprir suas obrigações financeiras. Dados da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) indicam que a carteira rural considerada “estressada” — que inclui dívidas inadimplentes, prorrogadas ou renegociadas — cresceu de R$ 38 bilhões em janeiro de 2024 para R$ 171 bilhões em janeiro de 2026, alcançando R$ 196 bilhões em abril deste ano.
Atualmente, o estoque total de crédito relacionado ao agronegócio é de R$ 1,226 trilhão. Em resposta a essa situação, o setor busca a aprovação do Projeto de Lei 5.122 de 2023, que propõe mecanismos para renegociação de dívidas rurais afetadas por eventos climáticos. O Senado já aprovou a proposta no dia 10 de junho, e agora ela aguarda análise na Câmara dos Deputados.
O projeto enfrenta um impasse entre a bancada ruralista e o Ministério da Fazenda, que estima o custo total para a União em R$ 139,8 bilhões, com impacto de R$ 22,4 bilhões a partir de 2027 sobre o superávit primário. Essa estimativa considera uma carteira de até R$ 200 bilhões em dívidas que podem ser enquadradas na nova linha de financiamento, embora o total elegível possa ultrapassar R$ 300 bilhões.
A bancada ruralista contesta os cálculos do governo, afirmando que o custo máximo seria de R$ 5 bilhões no primeiro ano e R$ 65 bilhões ao longo de 13 anos, com base na taxa Selic atual de 14,5% ao ano. Eles argumentam que o governo confunde o estoque de operações elegíveis com o custo efetivo do programa, enfatizando que o projeto tem caráter autorizativo e que caberia ao Poder Executivo definir os limites de contratação.
O texto do projeto também indica que as fontes de financiamento devem utilizar recursos já existentes em fundos públicos, como o Fundo Social do Pré-Sal e os fundos constitucionais FNE, FNO, FCO e o Funcafé.
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