No Dia Nacional do Professor, comemorado em 15 de outubro, educadores brasileiros relatam as estratégias usadas para prender a atenção dos estudantes e reduzir o tempo consumido com pedidos de silêncio e disciplina, que chega a 21% da carga horária, segundo a Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Talis) 2024, da OCDE.
Música para decifrar Bhaskara
No Ginásio Educacional Olímpico Isabel Salgado, na zona oeste do Rio de Janeiro, o professor de matemática Marcos Nunes troca o quadro-negro pelo ritmo de “Halo”, de Beyoncé, para ensinar a fórmula de Bhaskara. Sem avisar, ele coloca a canção, bate na mesa como se fosse uma batucada de funk e canta a equação: “x é igual a menos b, mais ou menos raiz de b ao quadrado menos 4ac sobre 2a”. O recurso, afirma, faz os alunos rirem, memorizarem o conteúdo e melhorarem o desempenho.
Com 20 anos de carreira e ex-aluno de escola pública, Nunes identifica rapidamente quem tem mais dificuldade e revisa assuntos de anos anteriores sempre que necessário. “O desafio é fazer o estudante com dificuldade aprender. Quando ele passa a resolver as questões, acaba mais motivado”, diz.
Inteligência artificial no sertão piauiense
A 1.000 quilômetros dali, em Guaribas (PI) — município que já foi símbolo da pobreza extrema no país — a professora Amanda de Sousa ensina inteligência artificial (IA) no Centro Educacional de Tempo Integral Paulo Freire. Integrante do programa estadual Piauí Inteligência Artificial desde 2024, ela aprendeu o tema, concluiu uma pós-graduação e passou a orientar os alunos sobre uso ético das ferramentas, mesmo dispondo de apenas 25 computadores para 200 estudantes.
Quando a conexão à internet falha, Amanda trabalha “desplugada”. Uma das atividades consiste em montar árvores de decisão com imagens de animais da caatinga. “Depois que identificam padrões — ‘tem pelo’, ‘é terrestre’ — eles percebem que construíram um algoritmo”, explica. O engajamento cresceu à medida que os jovens ganharam autonomia para empregar a IA nas pesquisas escolares.
Desafios em escolas indígenas
Na Terra Indígena Sete de Setembro, em Cacoal (RO), a coordenadora das escolas Paiter Surui, Elisângela Dell-Armelina Surui, observa que crianças do 1º ao 6º ano chegam antes dos docentes, mas o interesse diminui no ensino médio. A preocupação é manter os adolescentes nas aldeias para preservar a língua materna, já que muitos querem estudar em colégios rurais fora da comunidade.
Por lei, celulares só podem ser usados em atividades pedagógicas, e a participação das famílias é convocada quando o aparelho distrai demais. Alguns professores recorrem a vídeos gravados com os próprios alunos e experimentam recursos de IA, ainda que falte formação específica.
Para tornar o currículo mais significativo, a educadora indigenista Maria do Carmo Barcellos desenvolveu, com docentes Surui, materiais sobre governança territorial e educação climática, baseados no cotidiano da aldeia. “É comum ver crianças apenas copiando do quadro. Propusemos aulas em que elas aprendem cozinhando ou acompanhando o plantio, como já fazem no dia a dia”, relata.
Disciplina em debate
A pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Luana Tolentino pondera que a ênfase exclusiva na disciplina pode afastar os estudantes. “Se o foco é só manter ordem, os jovens tendem a buscar formas de indisciplinar”, afirma. Para ela, práticas que dialoguem com o território e as vivências dos alunos favorecem a aprendizagem.
Indicadores de bem-estar docente
Os números da Talis 2024 mostram que 44% dos professores brasileiros dizem ser interrompidos com frequência em sala de aula. Apenas 14% sentem a profissão valorizada e 21% classificam o trabalho como muito estressante — sete pontos percentuais a mais que em 2018. Problemas de saúde mental afetam 16% dos docentes, ante média de 10% nos países da OCDE; impactos físicos atingem 12%, frente a 8% no levantamento internacional.
Origem do 15 de outubro
A data homenageia os docentes desde 1827, quando o imperador D. Pedro I instituiu o Ensino Elementar no Brasil. A primeira celebração ocorreu em 1947, em São Paulo, e o reconhecimento nacional veio em 1963. À época, apenas 12% das crianças brasileiras frequentavam a escola.
Hoje, entre desafios tecnológicos, culturais e de saúde, professores de diferentes regiões seguem buscando formas criativas de garantir que o conhecimento chegue a todos os estudantes.
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